“Ainda ontem”

Logo menos completamos 7 meses morando em São Paulo.

Que loucura! Parece que chegamos outro dia!

As crianças já aprenderam que aqui todo mundo fala com todo mundo na rua. Dante ate desenvolveu seu show de “olá!” e “tchau” pra quem vê passando. Cecília perdeu muito a timidez e agora já consegue responder pra (quase) todo mundo que pergunta o nome dela e do irmão.

Ela já quase não fala portunhol e ele tá soltando a língua em “paulistanês” mesmo!

E esses, pra mim, são grandes sinais de que os dois estão adaptados, não tenho dúvidas!

Já eu… bom, ainda não (re?)aprendi a dar beijinho em TODO MUNDO quando chego e saio dos lugares e passo umas boas vergonhas…

(Mas, sério, é literalmente TODO MUNDO! ceis já repararam no exagero que é isso nessa terra, gente?! Hahaha)

Ainda não me reencontrei nesse lugar.

(Mas também ainda não me reencontrei em mim, então já sei que esse buraco é mais embaixo.. hahaha)

Não reencontrei o encanto que em algum momento tive por essa cidade. E não consigo nem vislumbrar o que faz as pessoas amarem esse lugar..rs

Mas já estou acostumada à vida que levamos por aqui, ao bairro, ao dia a dia, à “rotina” (entre aspas, porque com essa ainda estou enrolada!)

Ainda tenho a sensação de que “estou me acostumando porque voltei outro dia” e vou tomando vários sustos ao notar que já não foi tão “outro dia” assim!

Se existe “puerpério” de “desexpatriação”, já sei que o meu aqui será longo…rs

Mas sei também que é um processo e que, passinho por passinho, uma hora já não vou mais me sentir “de fora” na cidade que um dia foi minha…

Com sorte, logo eu olharei por essa janela e verei beleza na cidade e não só numa eventual luz de chuva…

Será?!

Anúncios

"Com açúcar, com afeto"

As teclas nas quais eu mais bato nesse blog, traduzidas num documentário lindo!!!


http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=4JSvrCf_aU4#!



– Amor à língua portuguesa;
– Expatriação;
– Bilinguismo.



(infelizmente não estou conseguindo colocar o vídeo aqui, mas é só clicar no link e correr lá pra assistir, ok?!)

Depois vocês me contam se fui a única que chorou assistindo…
hahahaha

"A língua é minha pátria"

Daí que eu acabei de receber a notícia de que estou perdendo o português! 
E não tô falando do bigodudo fugindo de navio pro velho continente, não! Tô falando do meu tão amado, idolatrado, salve, salve- idioma! Minha língua materna, cheia de regras cheias de sentidos, cheia de complicações que eu amo tanto e de detalhes que fazem toda a diferença…! (sem ironia, juro que eu amo! rs)

Fiquei sabendo que meus posts estão cheios de erros feios, como o “bapho” do “lucho” que eu escrevi assim, com CÊ-AGÁ-Ê! Horror!!!
Diz que tem outro erro desses no “Segue o Seco”- parte 2 também, mas acabei de reler ele todinho e não achei!
Esse é o problema, gente! Eu não enxergo esses erros, juro!!! Meu cérebro trilingüe (ai, que chiquesa metida! rs) não tá dando conta! Simplesmente não percebo!
Nem eu, nem meu corretor automático, que de “sou inteligente, descubro sozinho seu idioma”, passou pra “cale-se, cale-se, cale-se, você me deixa looooucoooo!!! E apaga esse “nem” aí em cima que isso não existe em espanhol” (oi???) Sério! Ele grifa umas coisas nada a ver, me deixa confusa, corro pro google pra confirmar que “cai” escreve assim mesmo (juro! fiz isso outro dia!) e deixa passar umas outras coisas vergonhosas!
Eu sei, nem sempre é culpa dele…afinal, lucho, do verbo luchar, não está errado, mas lucho, do adjetivo luchuoso, é um absurdo, minha gente!!!!! Argh!!!

Justo euzinha, a mimimi caga-regra do português, primeira a reclamar e parar de ler o novo blog da fulana porque ela não sabe escrever..! 
Vergooonhaaa!!!!
Desculpa, mundo, vou tentar melhorar – o português e o feio hábito de sair julgando as pessoas pelos erros de português que cometem (menos com o qual/ a qual!!! não sabe usar, não insiste, pô!!! ahahahhaha)

Mas, serião, leitores! Assim não dá, assim não pode!!! Pode não, minha gente!
A próxima cagada feia que você ler por aqui (tirando palavrões, feito “cagada” rs), corre me avisar, por favor????
Sem vergonha, sem medo de me ofender ou envergonhar…avisa, vai…! Pior é ficar o registro dos absurdos por aqui…hahaha
E se for menorzinha, menos feia e mais cagadinha, pode avisar também! Preciso da ajuda de vocês, amigos revisores, pra não afundar meu bloguezinho amado num buraco sem volta, ok?! Conto com vocês!! hahaha

(só não se preocupem muito com as frases com as ordens invertidas, de pronomes especialmente, porque enquanto eu luto – ainda – pra aprender a fazer isso em espanhol, o jeito certo do português vai pra cucuias, mesmo…sorry aí! hahaha)

E hoje eu ia terminar de contar do Atacama, mas agora fiquei com vergonha de escrever tudo errado! hahaha

Besos

"Vamos lamber a língua"

Um dos piores pesadelos que tive na vida – se não o pior – foi quando sonhei que o Chico Buarque tinha morrido. Acordei chorando muito e com uma angústia tamanha que demorou a passar e que até hoje aperta meu peito quando penso no assunto.

Em 2007, no período em que ia a todos os “Baile do Baleiro”, ou seja, quase toda semana num show, eu sempre saía de lá com a alma lavada, com uma felicidade indescritível. Ia dormir leve e tinha sonhos super gostosos em que estava em uma roda de violão com toda a banda, super amiga do pessoal, batendo altos papos e cantando tudo que é música. Isso sempre resultava em manhãs deprimidas e depressivas, manhãs de voltar à realidade, lembrar que não sou amiga dessa turma e tão pouco sei cantar! rs

Li agora no blog Adorável Psicose o seguinte trecho:

“Lembro da professora de “Atualidades” falando sobre como o comércio era uma das provas de que não somos autosuficientes. Nós precisamos trocar para sobreviver.
E seguindo essa lógica, seria, de fato, impossível ser feliz sozinho. Tom Jobim devia concordar com a minha antiga professora de “Atualidades”. De repente eles até já se pegaram. Isso explicaria muita coisa do que ela dizia nas aulas.”

Fiquei pensando então na relação que desenvolvi com a música…

Eu costumo dizer que o Chico Buarque é o homem da minha vida e que o Zeca Baleiro é meu amante. (tenho, inclusive, sérias brigas com meu marido real sobre tietagemXciúmes)

É claro que essa brincadeira se refere puramente às composições de cada um deles. Admiro MUITO pessoas capazes de fazer músicas tão bonitas – até porque uma das maiores frustrações da vida é justamente a falta dessa capacidade em mim – mas o amor, antes de ser pela pessoa, é por aquilo que ela (me) diz com seu trabalho.

Mais do que a pessoa, o que apaixona e é capaz de tocar bem lá dentro (nas feridas más ou nas memórias boas, não importa), é essa magia que é a música em si.

Óbvio que a professora de “atualidades” não pegou o Tom Jobim, mas acho totalmente provável que as idéias que ela disseminava nas aulas como “verdades a serem racionalmente aprendidas pelos alunos” viessem da relação emotiva que ela própria tinha com as músicas e, consequentemente, com as idéias do Tom.

Acabei também de comentar com uma amiga: 
Não tenho absolutamente nada a ver com carnaval ou futebol, na verdade não gosto de nenhum dos dois; mas os anos de convivência com o Chico Buarque fazem com que seja impossível meu coração não ter uma quedinha pelo Fluminense e arrastar uma super asa para a Mangueira!

Porque no fundo é exatamente isso: eu posso nunca ter falado com o Chico na vida (apesar de ter tido a chance de agarrar o pé dele uma vez. rs), mas digo sem aspas nenhuma que tenho anos de convivência com o Chico Buarque.

E não me importa que na vida real ele seja chato ou arrogante, ou que o Baleiro use ou não drogas antes dos shows. 
Não importa que o Chico namore uma menina “boba” de 30 anos ou que o Baleiro seja casado com uma fotógrafa feia.
Não importa, porque não é através da vida real que me relaciono com eles. Não é com o eles de verdade e eu sei disso.
É com o papel que cada um assume em cima do palco ou com a idéia ou imagem ou sonoridade encantadora que eles cantam tão belamente.


Porque passa pelo racional, claro. É como disse uma vez: alguém que não entenda e/ou admire a língua portuguesa como eu, simplesmente não é capaz de entender totalmente minha paixão por Chico e Baleiro!

Mas também passa por….bom, como diz a Adriana Calcanhotto, de prato e garfo:




Pois é, acho que minha relação com a música se dá em algum outro plano. Em que sou só eu e a música de alguém.
É carnal, como o “de repente eles até já se pegaram”, mas é carnal no nível espiritual – se é que isso faz algum sentido…

Faz?



Filosofia de sala de espera

Sabe aquela lei no bocejo? A pessoa do seu lado (ou do outro lado do skype) boceja e você já sabe…vai sobrar bocejo pra você também.

Hoje, na faculdade, aconteceu um fenômeno parecido, mas com um espirro. Uma colega espirrou e eu espirrei logo em seguida.

E essa mini sequência de espirros me fez pensar numa coisa muito óbvia, muito simples e até boba: espirros são universais – ou poliglotas, como eu twittei na hora…rs

Pois é, eu aqui, esse tempo todo de observadora estrangeira, prestando atenção nos hábitos, costumes, diferenças…
Catalogando os chilenos de acordo com um monte de padrões novos criados no meu dia a dia…
Sentindo uma pontinha de orgulho por “andar entre eles” entendendo a lingua deles e uma mais…

E aí um simples espirro me dá um chacoalhão – literalmente e metafóricamente.
E fica muito claro que, apesar de algumas diferenças, eu sou igual a eles. 
Oh meu deus! Eu espirro como as chilenas e as chilenas espirram como eu. O mesmo som. O mesmo efeito no corpo. A mesma coçeira no nariz. Tudo igual.
Fale ela português ou não. Tenha ela a experiência de conhecer e vivenciar outra cultura ou não. Tenha ela um ou 15 anos de faculdade.
Nós espirramos igual.

Talvez esse texto esteja um pouco “viagem” demais, mas o efeito que essa simples constatação teve em mim foi daqueles… como um espirro. Aquela coisa óbvia, normal, quase rotineira e que você sente chegando… e que depois que chega vai embora e te deixa com um arrepio diferente, mais limpo por dentro… um pouco sem saber se vem mais depois desse ou não; sem saber como você vai ficar depois dele; sem saber se é uma anúncio de um resfriado – que significaria uma grande onda de espirros consecutivos – ou só uma coisa passageira…
Veremos..



Redes sociais: pra deitar em grandes grupos e fazer amigos?

Acabei de ler alguma coisa no twitter sobre “corredor polonês” e fiquei imaginando o que um homem grande e loiro estaria fazendo correndo na escola dessa pessoa… Juro! Levei alguns segundos pra assimilar o verdadeira significado da frase! rs
O que me levou a pensar que essa tal experiência de viver outro idioma não só traz as novidades desse novo idioma, mas muda também a sua relação com a língua materna. 
Foi ingênuo da minha parte esquecer que pasillo e corredor são a mesma coisa em português – e minha cabeça logicamente fez a associação com o mais “lógico” do momento, mesmo que não fizesse sentido algum um polonês correndo por aí batendo em adolescentes…
O que eu acho fantástico é que pro meu cérebro realmente faz sentido que eu entenda assim!


Aliás, essa semana uma amiga postou esse link no facebook: http://super.abril.com.br/blogs/cienciamaluca/falar-varios-idiomas-pode-deixar-voce-com-varias-personalidades/
Será que essa pesquisa leva em conta pessoas que vivem em um outro país e que devem, praticamente o tempo todo, falar outra língua???
Porque, segundo isso, aqui no Chile sou mais esquizofrênica do que sempre fui no Brasil! hahahaha
Mais esquizofrênica, passeando com uma cachorra perigosa e dirigindo por aí! Se o governo chileno descobre, me manda de volta rapidinho!!!! hahahaha


Beijos!


Ah! Já visitou meu blog novo? Não? Vai lá! www.sobquemascara.blogspot.com 

Portunholando

Algumas coisas peculiares vêm sendo observadas nas nossas conversas por aqui: em casa deveríamos conversar em português, mas o que acaba saindo são umas falas tortas e muito entretenidas! 
O que  passa é uma mescla que acontece tanto com o emprego de palavras em espanhol no meio da conversação, quanto de palavras em português com o sentido ou o emprego que ela normalmente só teria em espanhol.


Quando vou cumprimentar alguém (escrevendo, num encontro pessoalmente ou numa chamada) não sei mais dizer “oi, tudo bem?”; sempre escapa um “oi, como está?”. Acho muito mais prático botar alguma coisa do que jogá-la no lixo. Soa um pouco demasiado educado dizer perdão ao invés de desculpe, mas é assim que ocupo agora. Estamos buscando departamento pra comprar. Bebida é só refrigerante. No meu caderno (que é escrito todo em português) o sonido é elemento fundamental para o desarrolho da narrativa. Fui numa tenda buscar jalecos de frio, mas não alcancei elegir nenhum bom. E sigo tenendo muito mais frio que todos os chilenos e me destacando entre ellos por toda a roupa que ponho!













Sim, sim…


Essas questões de linguagem tem sido minha maior diversão ultimamente!
E teria mais exemplos pra dar, mas quis só fazer uma brincadeirinha rápida mesmo…


Boa noite e ótima semana à todos!

As três etapas do desenvolvimento

Um dos primeiros passos da preparação pra mudança de país foi o aprendizado do novo idioma.

Minhas primeiras aulas foram com uma chilena recém chegada ao Brasil e que, no Chile, dava aula pra crianças pequenas. Ela me ensina um espanhol que permitisse que eu virarasse bem quando chegasse por aqui. Ou seja, eram aulas de quase pura conversa, onde eu aprendia vocabulário não só de espanhol, mas principalmente de “chileno”. Eram bastante úteis essas aulas, mas não eram muito suficientes: Eu tinha sede de aprender a gramática do espanhol. 

Em 2004, quando fiz cursinho no anglo, tive aula com o melhor professor de gramática que já conheci. Ele fazia com que as tais regras chatas fizessem sentido e, mais do que isso, fossem úteis! Eu não teria mais dúvida de como pronunciar uma palavra se fosse capaz de indificá-la enquanto oxítona, paroxítona ou proparoxítona. Eu não precisaria mais ficar chutando onde vai ou não a crase, ou a vírgula, se soubesse exatamente pra que elas servem e pudesse escolher quando as queria com tais funções ou não. Foi super revelador e apaixonante estudar nossa língua portuguesa por esse ponto de vista!

Pois bem, era assim que eu queria conhecer o espanhol. Não me bastava decorar quando é com c, z ou s, eu sempre queria saber o porquê das coisas. Por que essa palavra tem acento? Por que nessa conjugação surge essa letra i? Por que? Por que? Por que?
Era uma questão de curiosidade pessoal, mas também uma busca por autonomia; se entendesse as regras, podia tirar sozinha as conclusões e saber o espanhol.
E por um motivo ou por outro fui alimentando minha curiosidade, pesquisando na gramática ou na internet as respostas que a professora não sabia dar, me encantando quando algumas coisas muito básicas de repente faziam todo sentido, me deliciando com as explicações que tornavam mais possíveis minha relação com o idioma… Sentia-me um pouco criança, analfabeta, aprendendo quase que do princípio básico o be-a-ba, mas buscando meu modo construtivista de aprender espanhol.

Quando cheguei no Chile os primeiros contatos com o país seguiram na linha do encantamento: além de achar a Cordilheira linda, eu achava fofo as pessoas falando “chileno”, os movimentos de boca super articulados, a língua que não fica parada nem um segundo… Me divertia com algumas versões em espanhol que encontrava no rádio de músicas velhas conhecidas em português!

Por volta do segundo mês, quando começaram minhas aulas e passei a “viver em espanhol” de fato, entre todas as mudanças efetivas (e afetivas) que ocorreram, mudou também minha relação com a língua. Logo comecei a achá-la pobre – como assim vocês não conhecem mais preposições? Como assim vocês dizem “a lo pobre” e não “ao pobre”, custa tanto assim uma contração? E assim por diante… Várias coisas que os pobres estudantes de colégios odeiam, se matam pra decorar, e consideram as mais difíceis do português eu fui descobrindo como grandes “evoluções lingüísticas, sofisticações que tornam a comunicação muito mais fácil e bonita. Nesse período passei a ter que escrever e falar formalmente o espanhol – não mais “me virar”com ele, e chegava a sentir, literalmente, saudade das conjunções e de alguns tempos verbais. 
Claro que nesse momento não era só disso que sentia saudade, mas essas coisas “bobas e inúteis” engrossavam a lista das “coisas do Brasil que não sabia que me fariam tanta falta”.


No último mês comecei a fazer aulas de espanhol por aqui e essa semana eu estava pensado que vou criar um novo idioma: com as facilidade e coisas fofas que tem o espanhol, mas com as utilidades e sofisticação que tem o português! Simples, não?! rs

Simples ou não, esse desejo me diz um coisa: se, como disse o Caetano, “minha pátria é minha língua”, ao completar hoje três meses de Chile posso dizer que sou agora “bi-patriada”.
Não me sinto mais turista, encantada com tudo que encontro pelas ruas. Não me sinto mais “expatriada”, só sentindo falta e saudade de todas as coisas do meu país.
Finalmente estou em “lugar” que me permite ver as coisas boas dos dois lados e pensar em criar meu próprio mundo com o que eu escolher – visto que tenho as duas experiências e posso avaliar o que prefiro e o que renego. 
E acho que essa é uma das melhores partes não só da experiência de morar em outro país por um tempo, mas da escolha de não viver em seu país de origem!

E viva os 3 meses!!!

Ps.: Ontem fomos na despedida de um FuD brasileiro que, depois de 2 anos e meio de Chile, está indo pra Espanha. A reunião foi em um restaurante brasileiro e aproveitamos pra nos entupir e matar toda a vontade de comer coxinha!!!! Delicioso gostinho de “lá em casa”!


(Obs.: Post escrito ontem, dia 12, quando completamos 3 meses aqui; mas postado só agra porque ontem o blogger ficou fora do ar o dia todo!)