As três etapas do desenvolvimento

Um dos primeiros passos da preparação pra mudança de país foi o aprendizado do novo idioma.

Minhas primeiras aulas foram com uma chilena recém chegada ao Brasil e que, no Chile, dava aula pra crianças pequenas. Ela me ensina um espanhol que permitisse que eu virarasse bem quando chegasse por aqui. Ou seja, eram aulas de quase pura conversa, onde eu aprendia vocabulário não só de espanhol, mas principalmente de “chileno”. Eram bastante úteis essas aulas, mas não eram muito suficientes: Eu tinha sede de aprender a gramática do espanhol. 

Em 2004, quando fiz cursinho no anglo, tive aula com o melhor professor de gramática que já conheci. Ele fazia com que as tais regras chatas fizessem sentido e, mais do que isso, fossem úteis! Eu não teria mais dúvida de como pronunciar uma palavra se fosse capaz de indificá-la enquanto oxítona, paroxítona ou proparoxítona. Eu não precisaria mais ficar chutando onde vai ou não a crase, ou a vírgula, se soubesse exatamente pra que elas servem e pudesse escolher quando as queria com tais funções ou não. Foi super revelador e apaixonante estudar nossa língua portuguesa por esse ponto de vista!

Pois bem, era assim que eu queria conhecer o espanhol. Não me bastava decorar quando é com c, z ou s, eu sempre queria saber o porquê das coisas. Por que essa palavra tem acento? Por que nessa conjugação surge essa letra i? Por que? Por que? Por que?
Era uma questão de curiosidade pessoal, mas também uma busca por autonomia; se entendesse as regras, podia tirar sozinha as conclusões e saber o espanhol.
E por um motivo ou por outro fui alimentando minha curiosidade, pesquisando na gramática ou na internet as respostas que a professora não sabia dar, me encantando quando algumas coisas muito básicas de repente faziam todo sentido, me deliciando com as explicações que tornavam mais possíveis minha relação com o idioma… Sentia-me um pouco criança, analfabeta, aprendendo quase que do princípio básico o be-a-ba, mas buscando meu modo construtivista de aprender espanhol.

Quando cheguei no Chile os primeiros contatos com o país seguiram na linha do encantamento: além de achar a Cordilheira linda, eu achava fofo as pessoas falando “chileno”, os movimentos de boca super articulados, a língua que não fica parada nem um segundo… Me divertia com algumas versões em espanhol que encontrava no rádio de músicas velhas conhecidas em português!

Por volta do segundo mês, quando começaram minhas aulas e passei a “viver em espanhol” de fato, entre todas as mudanças efetivas (e afetivas) que ocorreram, mudou também minha relação com a língua. Logo comecei a achá-la pobre – como assim vocês não conhecem mais preposições? Como assim vocês dizem “a lo pobre” e não “ao pobre”, custa tanto assim uma contração? E assim por diante… Várias coisas que os pobres estudantes de colégios odeiam, se matam pra decorar, e consideram as mais difíceis do português eu fui descobrindo como grandes “evoluções lingüísticas, sofisticações que tornam a comunicação muito mais fácil e bonita. Nesse período passei a ter que escrever e falar formalmente o espanhol – não mais “me virar”com ele, e chegava a sentir, literalmente, saudade das conjunções e de alguns tempos verbais. 
Claro que nesse momento não era só disso que sentia saudade, mas essas coisas “bobas e inúteis” engrossavam a lista das “coisas do Brasil que não sabia que me fariam tanta falta”.


No último mês comecei a fazer aulas de espanhol por aqui e essa semana eu estava pensado que vou criar um novo idioma: com as facilidade e coisas fofas que tem o espanhol, mas com as utilidades e sofisticação que tem o português! Simples, não?! rs

Simples ou não, esse desejo me diz um coisa: se, como disse o Caetano, “minha pátria é minha língua”, ao completar hoje três meses de Chile posso dizer que sou agora “bi-patriada”.
Não me sinto mais turista, encantada com tudo que encontro pelas ruas. Não me sinto mais “expatriada”, só sentindo falta e saudade de todas as coisas do meu país.
Finalmente estou em “lugar” que me permite ver as coisas boas dos dois lados e pensar em criar meu próprio mundo com o que eu escolher – visto que tenho as duas experiências e posso avaliar o que prefiro e o que renego. 
E acho que essa é uma das melhores partes não só da experiência de morar em outro país por um tempo, mas da escolha de não viver em seu país de origem!

E viva os 3 meses!!!

Ps.: Ontem fomos na despedida de um FuD brasileiro que, depois de 2 anos e meio de Chile, está indo pra Espanha. A reunião foi em um restaurante brasileiro e aproveitamos pra nos entupir e matar toda a vontade de comer coxinha!!!! Delicioso gostinho de “lá em casa”!


(Obs.: Post escrito ontem, dia 12, quando completamos 3 meses aqui; mas postado só agra porque ontem o blogger ficou fora do ar o dia todo!)
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2 pensamentos sobre “As três etapas do desenvolvimento

  1. Assino embaixo sobre as diferenças entre as duas línguas. Não há riqueza como a da língua portuguesa! Mas é realmente divertido descobri-lo vivenciando outras maneiras de se escrever, falar, enfim, expressar.

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  2. eu escrevi um comentario enorme, a net caiu e apagou tudo! PFFF

    tem tanta coisa pra comentar sobre esse post! merece uma conversa ao vivo (agora que os comentarios se foram)!

    sera que uma hora vou encontrar meu lugar em algum lugar? esse eh um sentimento que me acompanha ultimamente. nao me encontro em nenhum lugar em que estou.

    ps. vou começar um blog, acho… hehe

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