"Hora de ir embora"

“Arte de deixar algum lugar
Quando não se tem pra onde ir”

Minha visão do paraíso é um show eterno do Chico Buarque…

Esse de hoje foi especial demais! Fiz questão de não ler antes a setlist e fui me encantando a cada começo de música. Foi perfeito! Pérola atrás de pérola!
Acho que quem montou essa setlist conversou antes com meu iTunes, ou é alguém que me conhece muito bem e sabe direitinho o que eu gosto… Impossível não chorar ao ouvir algumas “primeiras notas”…
Típicos “agora que ouvi isso ao vivo, já posso morrer”. rs
Na verdade comecei a me emocionar logo que chegamos na mesa…hahaha
Chorei um monte o show inteiro e mais um bocado quando acabou…
E claro que agora faltam palavras pra descrever a maravilha, desculpem!

Fica a pergunta de sempre: “por que tem que acabar???”
Sair da beirada do palco (sim, eu assisti o bis debruçada no palco!!!), virar as costas e ir embora…putz! Chega a ser cruel…

Mas não tem jeito…o show acaba, o palco vai sendo esvaziado e em algum momento preciso sair. Por mais que eu gostaria de ficar lá, fantasiando que posso sentir o perfume do Chico, babando no copo de água babado por ele, procurando algum possível fio de cabelo que tenha caído e me sirva de material pra uma futura clonagem, sei lá (rs), alguma hora preciso ir embora.

Mas ir embora já tá virando rotina pra mim…

Acabou o show como acabou a viagem.

Volto amanhã pro Chile com a alma lavada pelo show apaixonante, o coração aquecido pelos abraços e beijos recebidos, a barriga cheia de todas as delícias saudosas comidas, a mala pesada com alguns presentes ganhados, algumas saudades que ficaram sem solução…
E já volta aquela característica divisão de sempre.

Quero ir mas fico triste por não ficar, sabe como é?



“Hora de ir embora
 quando o corpo quer ficar
Toda alma de artista quer partir…”


Então, como disse o Chico: “Adeeeeuuuussss””




"Notícia de Jornal"

Estou há pouco mais de um ano morando fora do meu país e no momento passo uns dias no Brasil, só de visita.

Mesmo com meus números tão pequenos, já me identifiquei bastante com esse artigo da folha:

“De volta ao país, brasileiros sofrem ‘síndrome do regresso'”

O manualzinho também é interessante!



"Ponha a roupa de domingo"

É como se tivesse sido ontem. O frio na barriga. Os abraços apertados. O coração na confusão entre o dolorido e o ansioso.  Ainda consigo sentir tudo isso.


O dia em que eu sabia que minha vida mudaria pra sempre. Que eu deixava pra trás o conhecido pra enfrentar o desconhecido acompanhada do meu amor.

5 malas. Duas grandes e três pequenas. Só. Todas as coisas que precisaríamos pra essa nova etapa couberam em 5 malas.

Fora delas ficaram lembranças, histórias, amores…em forma de fotos, CDs, capas de DVD’s (os dvds eu trouxe soltos! rs), bichos de pelúcia, móveis que fizeram parte da minha vida, cômodos que acompanharam minha história e, especialmente, pessoas.

Porque todos essas coisas (e pessoas) que nos fazem ser quem somos de certa forma sempre nos acompanham, estão presentes na memória, na maneira de agir e de pensar, no coração… mas, querendo ou não, há uma parte de tudo isso que fica. Fica longe e faz falta.

E nesse mesmo dia eu sabia que passaria então a conviver com a falta, a lidar com ela, a crescer com ela.
E aprender que a falta de um pode ser, no final, a abertura pra outro novo; ou simplesmente o fortalecimento do amor àquilo que falta.

Era a segunda viagem internacional da minha vida e era um dos momentos mais decisivos dela.

Como já disse por aqui, foi difícil soltar os abraços, foi difícil dizer tchau, virar as costas e passar pelo portão… 
Mas a sensação de chegar do outro lado do portão, a divisão pela qual o coração passa então…. essa parte é indescritível!
Saber que de um lado ficaram aqueles abraços, sentir ainda no coração o calor que eles deixaram e esperar, numa ansiedade sem tamanho, tudo que vem pela frente…. é uma mistura….bom, indescritível, por isso nem vou tentar…rs


Há exatamente um ano.


Terça feira este blog completa um ano (com 6060 visitas! Uhuuu!!!), o que significa que, segundo a contagem que venho fazendo desde então, hoje completamos 12 MESES DE CHILE!

A vida já está mais calma, as novidades já não são mais tão constantes… O que explica também a lentidão na qual este blog se encontra…
Mas foi um ano de tanta mudança, interna e externa que, como disse em dezembro, foi um ano que durou uma vida inteira!

Os seis primeiros meses têm seu pequeno resumo por aqui: “Pra mim meia dúzia é seis”
O segundo semestre foi mais menos a mesma coisa, mais visitas especiais, mais comilança, mais saudade do Brasil e dos meus queridos brasileiros, mais faculdade, mais santander, viagens (pro Brasil e pelo Chile!), mais queridos por aqui e o aqui ainda mais querido!

Foi um ótimo ano! 

Santiago é uma cidade ótima pra morar, a qualidade de vida é incrivelmente melhor do que a tínhamos em São Paulo, o clima nos agrada, a poluição do ar a gente ignora, já escolhemos nossas pessoas pra ter perto, a faculdade (minha) e o trabalho (do Lucas) estão nos ensinando bastante (sobre nós mesmos, inclusive) e o segundo ano só está começando!
É uma cidade ótima e que vai nos acolher por mais um tempo ainda… 
Já temos aqui a NOSSA casa gostosa e a nossa filha chilena vai ser um pedacinho desse país que vai nos acompanhar ainda por muito tempo…

Sendo assim, o dia tem que ser de comemoração e de agradecimento!

Pra agradecer àqueles que nos apoiaram nessa aventura louca de vir morar no desconhecido outro lado da Cordilheira, que nos desejaram boa sorte e desde então vem torcendo por nós (agora) 3, que nos abraçaram no aeroporto nesse dia tão importante, que nos abraçam on line sempre que podem e aos que vieram nos abraçar pessoalmente aqui mesmo!

Agradecer aos que nos receberam tão bem do lado de cá, que nos apresentaram o lugar, nos ensinaram o que a gente precisava saber, que ajudaram nos asados e assaltos (hahahaha), que ajudam a tornar nossa casa num lar acolhedor com a simples presença por aqui, aos que amam a Maní de verdade, aos que fazem parte do nosso dia a dia e tornam todo o caminho menos árido (mesmo com a abençoada falta de chuva desse país)!

Agradecer ao Chile, porque não, esse país tripa comprida, de cultura suficientemente diferente da nossa, pra me fazer encantar com as descobertas e suficientemente parecida, pra tornar essa primeira adaptação não tão difícil. Aos chilenos tão apaixonados pelo Brasil, sempre nos recebendo bem. (às praias brasileiras, responsáveis por todo esse amor!). Aos que não nos recebem tão bem assim também, porque deles dependem nossas maiores aventuras pelo país…hahaha

Agradecer ao Santander, claro! Gostem ou não desse banco, ele é o maior responsável pela situação atual!

E, sei lá..agradecer à vida, por tudo isso, por todos esses à quem agradeço, por tudo que veio e ainda virá!

Então, um brinde ao primeiro ano de expatriados, no Chile, em família e com a vista mais emocionante da vida!

Beijos especiais a todos os vocês, sempre tão queridos e pacientes, que ainda guardam um pouquinho e curiosidade pra esse blog….











ps.: Sabe como comemoramos 1 ano de Chile?
Fomos almoçar coxinha e feijoada no restaurante brasileiro!!! hahahaha




"do lado de baixo do Equador"

Já descemos mais de 1.800km (de carro) e amanhã começamos a subida de volta…

Até agora temos 1.240 fotos!

Saímos de Santiago na segunda feira, dia 02, fizemos nossa primeira parada em Temuco, no dia seguinte Los Angeles e Valdivia, depois Osorno, Entrelagos, Vulcão de Osorno, Puerto Varas, Frutillar, Puerto Montt…hoje atravessamos pra Ilha de Chiloé e já conhecemos Ancud, Cucao e Castro!

É tanto lugar que vamos confundindo os dias, as ordens dos passeios, o que tinha em cada lugar, etc…
Essa é a vantagem de estarmos em grupo (somos 4) fazendo uma viagem longa: ela nem acabou ainda e já estamos relembrando os passos…rs

Muita paisagem bonita e diferente, muita gente simpática, várias experiências novas, muito calor, muitos insetos (malditos Tábanos!!!!!!!!!), muita comida boa – especialmente peixe, muito peixe! – agora um pouco de chuva, MUITA estrada… e um Chile todo novo e diferente do que eu considerava “chileno”!
Experiência mega importante nessa vida de expatriada, explorando mais e mais da tirinha querida que é esse país! (pena que é uma tira muito comprida e difícil de percorrer de ponta a ponta…rs)



Por enquanto vou ficar devendo fotos porque o wi-fi do hostel aqui em Castro está muito ruim…
Aos mais curiosos deixo um convite: dêem um pulinho lá no GoogleMaps pra ver o traçado da nossa rota enquanto esperam nossos pontos de vista!


Beijos e ótimo 2012!

"Tava indiferente, logo me comovo"

Há exatamente um ano eu estava em Paris, super encantada com o lugar. Mas eu ainda não sabia que ia encontrar meu coração em Edimburgo…

Eu ainda não sabia que chilenos não tem cara de índio; que Santiago é praticamente uma metrópole e que aqui pode até nevar, mas faz calor de verdade!

Há exatamente um ano eu nunca tinha tido um cachorro na vida, mas eu já desconfiava que seria conquistada…

Eu achava que sabia falar espanhol, e achava que estava preparada pra viver num novo país…

Eu não conhecia um monte de pessoas que agora existem na minha vida (com maior ou menor grau de importância).

Eu não sabia que a falta pode ter tantas facetas diferentes e nem pensava que aquele “saudades” sempre no final de alguns emails poderia ser tão mais palpável e real…

Há um ano eu suspeitava que 2011 seria imenso, em todos os sentidos! E suspeitava que MUITA coisa ia mudar…
Acho que eu ainda não sabia que EU mudaria tanto, nem que era possível mudar, sendo ainda a eu mesma de sempre.

Em 2011 eu reclamei muito na internet, nas redes sociais, no blog…
Aliás, em 2011 eu fiquei muito na internet… provavelmente pra vir sem ir de vez, pra deixar alguma marca em vocês aí tão longe e ter a presença de vocês aqui perto…

Parece que faz uns mil anos que estive na Europa, parece que faz só um tempinho que estou casada, parece que foi há alguns anos que sai do Brasil, parece que estou na faculdade há uma eternidade (por que será?? hahaha), parece que a Maní sempre esteve na minha vida, parece que o Chile é minha casa há pelo menos dois anos, parece que me despedi de alguns amigos há poucas semanas, parece que faz séculos que não vejo algumas pessoas (no caso de algumas, faz mesmo)…

O tempo é essa coisa maluca “que mexe com a minha cabeça e me deixa assim”(hahahaha)… mas o que eu andei percebendo é que a força e o peso de algumas experiências alteram bruscamente a sensação temporal sobre elas…

2011 foi uma vida inteira em um ano só!!!! 2012 já chega com mais calma… 
Talvez eu envelheça menos no próximo ano, talvez eu emagreça mais, talvez eu aprenda menos, talvez eu descubra mais…

Toda a sede de novidade misturada com o absurdo frio na barriga que eu sentia há exatamente um ano se acalmaram….
Mas fico contente em perceber em mim, para 2012, a fome de viver mais e, por que não, melhor!

Por isso, não vou desejar feliz ano novo pra vocês, mas sim um ano de barriga roncando, um ano de um apetite insaciável, para que, em um ano mais, possamos nos encontrar satisfeitos, com aquele soninho de depois de um bom almoço, deitar lado a lado na grama – mesmo que virtualmente – e comemorar todas as coisas deliciosas que devoramos no ano que passou!

Aos meus super queridos, simpaticamente curiosos e sempre pacientes, BOM APETITE!!!!!

"Tempo, amigo, seja legal…"

Nos últimos sete dias eu não fiz janta nem sequer uma vezinha; quando quis comer coisa descente, o Lucas que teve que cozinhar.
Até a Maní, que deveria estar comendo só comida caseira, acabou ganhando ração em uma das refeições.
A pia da minha cozinha está medonha nesse momento.
TODAS as unhas da minha mão estão quebrando e/ou quebradas (além de gigantes).
Crises de enxaqueca não faltaram.
Já o funcionamento do cérebro, sim.
Esqueci de pedir água essa semana.
Esqueci de pagar a faxineira na sexta feira.
O corpo, claro, tá sugerindo um resfriado.
E a lista dos afazeres parece que não tem fim…….
Essa semana eu fui uma péssima esposa, péssima mãe e péssima dona de casa! Se a família tivesse fugido eu nem poderia reclamar.


Esse fim de ano não está fácil! 
Milhões de coisas infinitas da faculdade pra fazer; vídeos do Adote um Gatinho atrasados; cachorra semi-doente; mudança ainda não confirmada (apesar da urgência de prazos que temos); todas as coisas de mudança e instalação na casa nova pra ver, escolher, resolver, comprar…idas ao Brasil pra planejar; presentes pra pensar e comprar; todas as coisas da rotina da casa pra cuidar…e eu poderia seguir listando e listando e listando…

Acho que nunca na vida eu precisei tanto de férias! A contagem regressiva oscila entre absurdamente devagar e rápida demais pra tudo que ainda falta fazer… A relatividade do tempo ainda me deixa louca!
Dá frio na barriga de nervoso por pensar em todas as pendências e no pouco tempo que tenho disponível.

Mas no final, o que importa de verdade é que essa confusão toda é confusão de FIM DE ANO! 
Tá acabando!!! Falta cada vez menos!! Aí vem férias, vem Brasil, vem abraços, vem fim de saudades, vem festas de famílias, festas de amigos, vem 2012, vem viagens pelo Chile, vem mais férias, vem show do Chico Buarque, vem mais Brasil, vem um bom respiro pra encarar o (finalmente) último ano de mils faculdades…

Ainda tá apertado e sem-noçãomente corrido, ainda falta, mas…falta pouco! E é esse o recado que eu tô mandando pra gastrite que ameaça aparecer: “A gente dá conta, calma…Segura aí, que falta pouco pra hora do UFA”!



“Só me derrube no final”



15/11/2011


15/11/2011

No Brasil é “Proclamação da República”, ou melhor, é feriado.
Aqui no Chile é um dia muito especial!!!

Primeiro porque minha pequena linda está de cumpleaños!!!



Minha bebê deixou de ser bebê, completou seu primeiro ano de vida e agora já pode até comer comida de “perros adultos”!



Segundo….bom, o segundo ponto na verdade é uma novidade: compramos um apartamento!!!
A compra já rolou faz mais ou menos um mês, mas sabem como essas coisas são burocraticamente enroladas, né?!
Nesse assunto o “hoje” foi importante por dois motivos: porque finalmente saiu um documento que estava atrasado e atrasando todo o resto do processo; e porque fomos lá fazer a pré-entrega (e a devida vistoria).

O prédio é novinho em folha, por isso a entrega dos apartamentos ainda está começando… fica a três quadras do metrô, numa região super gostosa, cheia de praças e parques em volta.. Nosso apartamento fica no sétimo piso, último do prédio, e já temos garantia de vizinhos super bacanas!!! hehehe

A apresentação formal:


Sejam bem vindos!


Entrando na sala

A sala vista da janela


Vista da sala pra esquerda


Vista da sala pra direita


Cozinha



Lavanderia




Quarto da Maní



Quarto de visitas


Nosso quarto


Vista do quarto






Nosso banheiro





Temos uma certa garantia dessa vista linda, porque o bairro é protegido por leis e não se pode construir mais do que cinco andares nessa parte na nossa frente!
(a droga é que o dia estava com muita poluição e não deu pra ver nas fotos o arraso que é a Cordilheira vista dessas janelas…)

Fomos fazer a vistoria acompanhados de uma arquiteta (filha de uma mulher que trabalha com o Lucas) e foi bem bom, porque ela percebeu vários detalhes que deixaríamos passar…
Agora estamos tentando apressar as coisas, porque queremos nos mudar até o final deste mês! Dedos cruzados!!!

Não vejo a hora de mudar! Gosto muito da nossa casa atual, mas essa obra gigante está terrível! Falta pouco pra chegarem no décimo piso e aí vai ser pior, porque os caras vão estar literalmente trabalhando dentro de casa! Argh!!!




Fala se não é um dia digno de comemoração?!?! hehehe


Beijos a todos!


"És mãe gentil"

Qualquer um que tenha irmãos, especialmente mais novos, já sentiu; e os que não sentiram, já viram nos filmes:
“meu irmão me irrita, é uma praga na minha vida, castigo eterno que meus pais me deram, etc, etc, etc… Mas ai de quem se atrever a fazer algum mal pro meu irmão!!! Não sobra nem pedacinho pra contar história, acabo com ele! Falar mal e agredir irmão meu, é privilégio MEU!!!”

Essa semana tive algumas brigas feias com o Chile e tive vontade de voltar correndo pros braços do Brasil. Quem diria, depois das intermináveis comparações de como minha vida é melhor por aqui…

Claro que nos momentos de raiva nem pensei que o Brasil tem uma burocracia terrível, que a violência em São Paulo é medonha, que o trânsito é um pesadelo…
E se nesses momentos alguém se atrevesse a tentar me lembrar alguma dessas coisas, tomaria na cara! Sem dó! Onde já se viu, falar assim do meu país?
Porque nessa semana o Chile é todos os nomes mais horríveis que eu conheço e o Brasil é minha lembrança boa, meu irmão que precisa ser protegido pra que possa me proteger.

Eu e o Lucas não temos planos de voltar a morar no Brasil e me ocorreu, durante essa semana de ódio ao Chilito, que esse plano carrega uma vantagem que eu nunca havia notado. 
Morar fora do Brasil preserva em mim um país “lar”, um colo pra eu ter pra onde voltar em momentos de briga, uma imagem bonita, nostálgica até, desse nosso país tropical, imagem que pode ser despida dos medos, preconceitos e críticas.

Acho que é parecido com quando a gente sai da casa dos pais. Já estamos na vida adulta, cada vez com menos espaço pessoal na casa que parece que não comporta tanta gente grande, irritados com o espaço e cansados das pessoas… 
Nesse momento a melhor parte de sair é poder querer voltar depois. Não voltar de vez, mas voltar pra visitas específicas, pra matar a saudade repentina da comida da mamãe, da camisa bem passada pela empregada, do cheirinho de amaciante na cama limpa, das músicas escolhidas pelo pai…
Saber que ali não é mais seu lar de verdade, mas que é onde sempre estará uma parte da sua história e uma fatia imensa do seu coração.

Imagina então quando essa “casa dos pais” fica justamente nesse “Brasil”?

É bom ter vontade de voltar, é maravilhoso saber que você pode voltar (não consigo nem imaginar a angústia dos exilados), mas talvez, nesse momento, o mais importante seja não precisar voltar. Ter a segurança de que tudo isso está lá me esperando pra quando eu quiser ou precisar e continuar sendo forte pra resolver meus problemas (e minhas raivas) por aqui mesmo, sem correr e desistir de tudo e ficando muito bem com o abraço do marido e o skype com a mãe – colos deliciosos, diga-se de passagem!

"Deixa chover"

Fala-se muito sobre a poluição do ar de Santiago, ou simplesmente “contaminación”,  como eles chamam.
Sempre é notícia e todos querem saber como está o ar,  se vai ou não haver restrição de veículos ou de lareiras e fogões a lenha; fogos de artifício são proibidos até no ano novo! Da minha janela posso avaliar a cada manhã a qualidade do que vou respirar só por contar quantos dos morros consigo enxergar no horizonte e tem dia que é assustadora a capa marrom que está no meio do caminho!

Mas desde que cheguei aqui o maior impacto que percebi no ar não foi a sujeira, mas sim a falta de umidade! É impressionante como isso aqui é seco!!!
No calor muito forte eu imagino que seja vantajoso você não ficar na dúvida se é você ou o ambiente que está transpirando, ou simplesmente conseguir transpirar e secar em seguida… mas nas temperaturas que peguei até agora…putz! Que seco!!! Nem as mil garrafas de água – que aqui viraram 2.000 – que tomo por dia dão conta de umedecer as coisas…rs

Tive que entrar numa rotina e numa disciplina que nunca tive e nem nunca desejei ter! Nos primeiros meses, enquanto seguia firme na teimosia antiga, minha mão ficou parecendo a de uma mulher de uns 50 anos e quando eu sentava podia sentir a pele da minha coxa se esticando, célula por célula…
Aí não teve jeito! Primeiro comecei a tomar banho com dove, sabe como é, 1/4 de hidratante e tal..torci pra que fosse o suficiente, mas não foi!
Passo seguinte: óleo sève… também fez pouca coisa..
Depois: sabonete líquido para pele extra seca… com esse eu comecei a sentir um pouco de diferença e aí me dei conta de que teria que me render de verdade!
Comprei cremes e mais cremes…uns 4 diferentes só pra mão, que deixo espalhados pela casa (quarto, banheiro, sala e bolsa) pra lembrar de passar o tempo todo! Pelo menos a aparência normal da pele da mão eu consegui recuperar!

Mas o ritual completo eu dou conta de fazer no máximo umas duas vezes por semana…porque…fala sério!
– Creme pros olhos;
– Creme pro rosto;
– Creme pra mão;
– Creme pro pé e
– Creme pro resto do corpo.

Pergunto: pessoas normais conseguem fazer coisas assim todos os dias????

Às vezes eu vou dormir me sentindo um pouco culpada, sentindo a secura no corpo, mas acho que esses são os dias em que meu lado “menininho” prevalece… Aquele mesmo lado que odeia fazer compras, gosta de carros e detesta altas concentrações de mulheres, especialmente conversando sobre assuntos femininos..
É quase como se eu tivesse um Buck – pra quem assiste Unites States of Tara – dentro de mim! (e se você não assiste e não sabe do que eu tô falando, vá assistir! É um dos maiores espetáculos de interpretação da televisão!!!)

E o meu Buck, que eu talvez chamasse de “Gabão” em homenagem a um amigo meu, simplesmente DETESTA os cremes todos!!! Ele lida há anos com o vício da manteiga de cacau e acho que com isso já se acostumou, ou simplesmente deixa a tarefa de reclamar sobre esse assunto com o Lucas…rs

Mas os cremes…ah, os cremes… Fico na dúvida se o Gabão detesta mais os cheiros que se misturam ou a textura macia-artificial que fica na pele! Coitado!
Pelo que parece ele vai que ter que aprender a lidar com essa sacanagem por pelo menos mais uns 15 meses, né?!
Quem sabe ele não se revolta e declara independência…


E falando em independência, domingo, dia 18, comemora-se as Festas Pátrias por aqui (sim, a independência) e desde o começo do mês essa cidade tá pior que o Brasil em Copa do Mundo! Juro!
Carros e casas enfeitados, prédios com suas bandeiras voando, bandeirinhas pelas ruas, gente vendendo coisas temáticas em cada semáforo, a Escuela Militar aqui do lado ensaiando loucamente (eu já sei as músicas da banda deles de cor…hahaha) e etc.

São diferenças assim que me surpreendem no povo Chileno com relação a nós brasileiros… a mesma capacidade que eles têm pra amar o Chile nas comemorações de setembro, eles têm pra ir pra rua brigar pela educação, ou pra se emocionar com a queda de um avião e a morte de 24 pessoas – uma delas, um apresentador importante da televisão.

Acho cada vez mais que as condições externas, além das históricas, claro, influenciam  as pessoas mais do que a gente imagina. O Chile, esse paísinho comprido e bem delimitado, com a Cordilheira o isolando e o protegendo, com esse seu clima seco…
E as coisas aqui se sentem tão intensamente! Talvez porque eles estão só com eles mesmos, em um clima em que nem deles saí “água”… nem o céu Chileno, nem a população Chilena choram..
E da mesma maneira que o céu mantém a secura e a poluição, pra sangrar nossos narizes semanalmente, os chilenos retém as mágoas, as raivas e as dores, de forma que elas continuam a sangrar por ano e anos…

Faz sentido que eles gostem tanto do Brasil…terra de mares forte e quentes, que lavam sua alma, levando consigo seu peso e depois jogam tudo fora em uma bela tempestade de verão…




"A saudade é uma colcha velha…"

A saudade é um negócio maluco, que não escolhe momento, motivo ou lugar pra aparecer!
Faz você levantar da cama, colocar o roupão e vir escrever alguma coisa pra ver se consegue desafogar e pegar no sono, enfim.


Pode ser uma música que surge no fone de ouvido e faz o motorista do ônibus assistir, com uma cara preocupada, você chorando feito criança no banco lá trás.
Pode ser a vontade repentina de comer bisnaguinha com yakult numa hora muito ingrata no meio da noite.
Pode ser a repetição, em outro idioma, de uma aula que você já teve.
Pode ser uma foto que pula na sua frente quando você deveria estar indo dormir.
Pode ser uma quase dor de dente.
Pode ser a percepção de que se está com muita saudade de alguém que não vê há nem 2 meses e que ainda faltam tantos outros pro reencontro.
Pode ser um email que nem era pra você, mas que pega com força em algum lugar desconhecido.
Pode ser uma voz (des)conhecida que te faz virar o pescoço à procura, antes de lembrar que é besteira.
Pode ser um cheiro.
Pode ser uma sombra.
Pode ser uma mensagem.
Pode ser um abraço errado.


Ou não precisa ser nada disso…


Ela vem e aperta o coração. Ou cutuca o coração. Ou aquece o coração.


A saudade é o sentimento de falta, mas é também, e acima de tudo, a certeza do amor.


Posso sentir uma vontade nostálgica de algumas coisas menores, mas saudade mesmo, só daquilo que amo ou amei.


Talvez seja isso: a saudade é o amor – ou a lembrança dele – nos mostrando toda sua potência…