"Vamos celebrar…"

Saudades de quando eu acreditava (mesmo que só um pouquinho) no horóscopo (da Capricho, diga-se de passagem).
Essa esperança honesta e inocente de que o mundo ia (não só podia, veja bem, IA) melhorar…

Claro que nessa época meu conceito de mundo era bastante reduzido e eu não conhecia exatamente o que é que precisaria melhorar no tal “Mundo”, talvez por isso fosse mais fácil crer…

Como eu disse ontem no facebook, estou de mal com a humanidade.

Não consigo mais acompanhar notícias e/ou comentários de facebook. Assim como não consigo simplesmente escrever minhas lamúrias (ou histórias ok) do dia a dia e pronto. O desespero de não poder fazer (quase?) nada às vezes me engole.

E descobri que falta força pra tentar mudar o mundo quando você não acredita numa mudança de verdade.

As meninas (minhas heroínas, by the way) do Adote um Gatinho sempre dizem que cada vida é o que vale e que apesar de se decepcionar todos os dias com as histórias absurdas, sempre que uma vidinha – uma só que seja – é salva, elas sabem que o trabalho duro está valendo a pena.

Talvez o que esteja faltando pra mim seja esse contato mais “palpável”  com o bem, o bem bem na frente dos meus olhos e ao alcance das mãos, não sei bem…
Como eu começo pra chegar nisso?



Fé eu nunca tive, mas percebo que perco cada vez mais a capacidade de acreditar.




Quando meu irmão era pequeno, devia ter uns 4 anos, alguém contou pra ele que Papai Noel não existia e ele foi, todo adulto e racional, contar pra minha mãe que “tudo bem”, que ele já sabia daquilo e nem ligava. Mas uns minutinhos depois ele achou melhor confirmar: “Papai Noel não existe, mas o Coelinho da Páscoa, SIM, né?!?!?!”

É justamente ESSE o brilho que me falta…
(Guto, você ainda tem um pouquinho pra me emprestar???)

Acho que só se o Papai Noel caísse na minha lareira (que no Chile é proibida), com um duende pendurado no cinto e pelo de rena no casaco, pra eu recuperar esse brilho…






"O futuro não é mais como era antigamente"

“Con motivo de su aniversario 25, la copia ha sido digitalmente remasterizada por lo que tanto los fans como las nuevas generaciones, podrán disfrutar de la imágen y sonido en alta definición.”



“De volta pro Futuro” completou 25 anos! E claro que a gente foi assistir no cinema!!!
Foi uma experiência emocionante!

A estréia aconteceu no dia 29/09 e apesar da vontade de ir correndo ver, resolvi esperar um pouco pra evitar a fadiga da multidão. Mas não adiantou muito…rs
Domingo, 19h30 – véspera de feriado, ok – e cinema completamente lotado!! Uma das maiores salas de cinema que eu já estive, cheia de gente de todo o tipo: famílias completas, casais, grupos de adolescentes, velhinhas de muletas, jovens de corpo e jovens de espírito! E até os que eram velhos de espírito certamente saíram da sessão com o frescor das novas primaveras!

A remasterização deixa o filme incrível e combinada com a tela enorme traz à vista detalhes que parece que nunca estiveram lá! E olha que assisti esse filme incontáveis vezes na televisão!!! (acho que foi a primeira vez que vi inteiro sem estar dublado..rs)

Claro que essa dupla também faz saltar aos olhos a tosquices como a da maquiagem que envelhece todos os atores, por exemplo; e que os sons de tiros e dos efeitos do DeLorean em alta definição Dolby chegam a fazer rir… mas notar essas coisas faz parte da diversão!



Re-assistindo agora fica quase óbvio o porque de o filme ter sido tamanho sucesso na sua época e em tantas outras depois (se ele está completando 25 anos, nasceu no mesmo ano que eu e mesmo assim foi um dos marcos da minha infância – vários anos depois!)
O roteiro é super redondinho: primeiros 10 minutos tudo que você precisa saber já está aí e tudo que está aí vai voltar e fazer sentido depois! Fora os atores, o efeito, a idéia gracinha, a quantidade de acontecimentos importantes e cheios de ação…



Marty volta 30 anos no tempo e cá estamos nós, 25 anos depois (55 anos depois do passado dele)… acho incrível ver o que era super moderno na tal década de 80, sinto mais ou menos o mesmo encanto que o personagem tem quando chega em 55, sabe?!



Como eu disse, o cinema estava lotado. Lotado de gente que já tinha visto o filme antes; e muitos que estavam levando alguém pra ver pela primeira vez, porque é o tipo de experiência que traz tanta lembrança e emoção que você quer dividir com “os que não tiveram essa chance maravilhosa na época certa”.
Sabe minha birra com o cinema? Então… esse tipo de experiência me faz lembrar a tal magia do cinema e o quanto ela realmente pode tocar as pessoas…

Pela primeira vez na vida (em uma situação não de festival, não com os realizadores presentes) vi um filme ser aplaudido na sala de cinema! E não foi só no final, não! Era um público realmente envolvido com o filme – pelas emoções antigas que ele carrega, mas também pela emoção que a ação em si ainda consegue trazer! 
Quando o George toma coragem pra salvar a Loreane do Piff, aplauso. Quando eles finalmente se beijam, aplausos. Quando a viagem de volta para o futuro dá certo, aplausos. Quando o Doc não está morto de verdade, aplausos. E no final, então…APLAUSOS!!!




Espero que essa versão remasterizada chegue nos cinemas aí do Brasil tb.. aqui tá fazendo o maior sucesso, certeza que aí daria mais do que certo! E, concordemos, merece, né?!?!!


Como eu disse, foi emocionante ter estado lá. Estar no futuro vendo um filme do passado sobre uma viagem pro passado e a volta pro futuro!!! hehehe
Incrível!!!! 


"E o que você vai ser quando você crescer?"

Todo domingo é a mesma coisa. 
A música do Fantástico com seu dom inigualável de deprimir os brasileiros. 
Quem não fez nada no fim de semana pedindo mais tempo de sofá.
Quem  passeou e se divertiu nos dois dias, comemorando a curtição e reclamando da falta de descanso.
Quem teve que trabalhar, implorando por uns dias de intervalo.


De alguma forma esse “drama universal” me fez pensar na minha história de crise profissional…
Esse segundo semestre tem, em geral, sido bem menos dramático que o primeiro. Continuo sem saco pra faculdade, mas tenho levado a coisa toda com mais leveza, o que é bom.
Mas andei reparando que o mais me faz odiar a faculdade é a sensação de que ela está puramente roubando tempo da minha vida útil. Perder tempo nas aulas ou, pior ainda, perder tempo extra fazendo coisas pra faculdade me irrita muito!
Porque todas as outras coisas são muito melhores do que as da faculdade. Todas mesmo, até limpar banheiro, juro!
E aí eu fico chateada por estar perdendo tempo. E a chateação me faz perder uma parte do que seria o tempo pra mim, minha família, minha casa…
(Eu percebi a idiotice da bola de neve e estou trabalhando nisso, não se preocupem..hehehe)

Mas voltando ao final de domingo…

 Claro que entendo que todo mundo goste de um descanso, que todo mundo goste de dar uma pausa na “vida real de todo o dia”. E claro que depois não é fácil esquecer a vida boa e voltar pra labuta, por mais que você goste da labuta.

Eu não sei o que quero ser quando crescer, por mais estúpido que isso pareça, um pouco por causa dos finais dos domingos.
Tenho cada vez mais claro pra mim que eu não quero ter uma “vida real do dia a dia” que me faça deprimir a cada começo de nova semana. E mais, não quero ter um “dia a dia” que me roube da minha vida real, da minha família e da minha casa.

Sabe quando você está no final do colegial e/ou no cursinho, super perdida e fazendo um milhão de testes vocacionais? Bom, eu sei bem!
Na época, tinha consciência de que estes testes não me ajudavam muito, porque eles eram muito fáceis de se manipular e eu sempre conseguia que o resultado ficasse pendente pro lado ao qual eu estivesse mais pendente no momento. Isso além de tirar minha confiança nos testes, me trazia um conjunto de respostas bastante confuso.
Mas não me lembro de em nenhum momento durante esse processo ter parado pra pensar honestamente em como eu queria a minha vida no futuro (não sei se porque não me perguntaram, ou se porque fazia parte do mecanismo de defesa não “pensar honestamente” durante o processo).

Pois bem, precisei chegar aqui, nos meus 25 anos de vida, sexto ano de faculdade, vivendo em um país diferente, tendo virado dona de cachorro, casada e dona de casa, pra perceber, ou assumir pra mim mesma, que independente do que eu vá fazer da vida profissional, essa não vai ser (porque eu não quero que seja!) a parte mais importante da minha vida (importante em termos de tempo ou de valor)!

Conversando com a Mandy – amiga que tá meio no mesmo barco que eu e que descreve esse momento de crise dela com palavras mais do que perfeitas para a crise minha – estávamos falando sobre essa mania que nossa sociedade tem de definir as pessoas pelas profissões que elas têm. O que significa que nós, perdidas nas escolhas profissionais, acabamos perdidas na sociedade também!
Eu ando irritada com “a sociedade” por um milhão de motivos e esse é um deles! 

Quase fui atriz, quase fui TO, serei (ou quase sou? ou quase fui?) Pós Produtora em Audiovisual… mas a verdade é que nada disso é o que eu sou, porque como estava dizendo lá em cima, cada vez tenho mais certeza de que não é esse título que quero pra minha vida. O que eu quero é a vida em si!

Esse texto parece uma grande viagem hippie, mas é mais um caminho pra essa descoberta pela qual venho passeando nos últimos anos.

Caminho que acaba de mudar de nome.

 Antes eu achava que estava tentando – e precisando – descobrir o que eu queria ser quando crescesse, mas pensando bem, talvez esses últimos meses tenham sido um caminho pra descobrir quem eu sou e o que eu quero ser da vida – enquanto pessoa, não profissão!
Exclusão me parece um passo importante. Sabendo o que não quero pra minha vida é provável que fique mais fácil escolher o eu quero da vida, não?!

"Deixa chover"

Fala-se muito sobre a poluição do ar de Santiago, ou simplesmente “contaminación”,  como eles chamam.
Sempre é notícia e todos querem saber como está o ar,  se vai ou não haver restrição de veículos ou de lareiras e fogões a lenha; fogos de artifício são proibidos até no ano novo! Da minha janela posso avaliar a cada manhã a qualidade do que vou respirar só por contar quantos dos morros consigo enxergar no horizonte e tem dia que é assustadora a capa marrom que está no meio do caminho!

Mas desde que cheguei aqui o maior impacto que percebi no ar não foi a sujeira, mas sim a falta de umidade! É impressionante como isso aqui é seco!!!
No calor muito forte eu imagino que seja vantajoso você não ficar na dúvida se é você ou o ambiente que está transpirando, ou simplesmente conseguir transpirar e secar em seguida… mas nas temperaturas que peguei até agora…putz! Que seco!!! Nem as mil garrafas de água – que aqui viraram 2.000 – que tomo por dia dão conta de umedecer as coisas…rs

Tive que entrar numa rotina e numa disciplina que nunca tive e nem nunca desejei ter! Nos primeiros meses, enquanto seguia firme na teimosia antiga, minha mão ficou parecendo a de uma mulher de uns 50 anos e quando eu sentava podia sentir a pele da minha coxa se esticando, célula por célula…
Aí não teve jeito! Primeiro comecei a tomar banho com dove, sabe como é, 1/4 de hidratante e tal..torci pra que fosse o suficiente, mas não foi!
Passo seguinte: óleo sève… também fez pouca coisa..
Depois: sabonete líquido para pele extra seca… com esse eu comecei a sentir um pouco de diferença e aí me dei conta de que teria que me render de verdade!
Comprei cremes e mais cremes…uns 4 diferentes só pra mão, que deixo espalhados pela casa (quarto, banheiro, sala e bolsa) pra lembrar de passar o tempo todo! Pelo menos a aparência normal da pele da mão eu consegui recuperar!

Mas o ritual completo eu dou conta de fazer no máximo umas duas vezes por semana…porque…fala sério!
– Creme pros olhos;
– Creme pro rosto;
– Creme pra mão;
– Creme pro pé e
– Creme pro resto do corpo.

Pergunto: pessoas normais conseguem fazer coisas assim todos os dias????

Às vezes eu vou dormir me sentindo um pouco culpada, sentindo a secura no corpo, mas acho que esses são os dias em que meu lado “menininho” prevalece… Aquele mesmo lado que odeia fazer compras, gosta de carros e detesta altas concentrações de mulheres, especialmente conversando sobre assuntos femininos..
É quase como se eu tivesse um Buck – pra quem assiste Unites States of Tara – dentro de mim! (e se você não assiste e não sabe do que eu tô falando, vá assistir! É um dos maiores espetáculos de interpretação da televisão!!!)

E o meu Buck, que eu talvez chamasse de “Gabão” em homenagem a um amigo meu, simplesmente DETESTA os cremes todos!!! Ele lida há anos com o vício da manteiga de cacau e acho que com isso já se acostumou, ou simplesmente deixa a tarefa de reclamar sobre esse assunto com o Lucas…rs

Mas os cremes…ah, os cremes… Fico na dúvida se o Gabão detesta mais os cheiros que se misturam ou a textura macia-artificial que fica na pele! Coitado!
Pelo que parece ele vai que ter que aprender a lidar com essa sacanagem por pelo menos mais uns 15 meses, né?!
Quem sabe ele não se revolta e declara independência…


E falando em independência, domingo, dia 18, comemora-se as Festas Pátrias por aqui (sim, a independência) e desde o começo do mês essa cidade tá pior que o Brasil em Copa do Mundo! Juro!
Carros e casas enfeitados, prédios com suas bandeiras voando, bandeirinhas pelas ruas, gente vendendo coisas temáticas em cada semáforo, a Escuela Militar aqui do lado ensaiando loucamente (eu já sei as músicas da banda deles de cor…hahaha) e etc.

São diferenças assim que me surpreendem no povo Chileno com relação a nós brasileiros… a mesma capacidade que eles têm pra amar o Chile nas comemorações de setembro, eles têm pra ir pra rua brigar pela educação, ou pra se emocionar com a queda de um avião e a morte de 24 pessoas – uma delas, um apresentador importante da televisão.

Acho cada vez mais que as condições externas, além das históricas, claro, influenciam  as pessoas mais do que a gente imagina. O Chile, esse paísinho comprido e bem delimitado, com a Cordilheira o isolando e o protegendo, com esse seu clima seco…
E as coisas aqui se sentem tão intensamente! Talvez porque eles estão só com eles mesmos, em um clima em que nem deles saí “água”… nem o céu Chileno, nem a população Chilena choram..
E da mesma maneira que o céu mantém a secura e a poluição, pra sangrar nossos narizes semanalmente, os chilenos retém as mágoas, as raivas e as dores, de forma que elas continuam a sangrar por ano e anos…

Faz sentido que eles gostem tanto do Brasil…terra de mares forte e quentes, que lavam sua alma, levando consigo seu peso e depois jogam tudo fora em uma bela tempestade de verão…




"É a vida"

Ontem acordamos com a notícia de que o marido da Carmen, uma senhora que trabalha com o Lucas, tinha morrido.
Ele estava muito doente há uns 8 anos já, mas na última semana uma pequena gripe levou seu problema no pulmão a um estado terminal e em menos de 5 dias ele se foi…
Eu não conhecia a Carmen e menos ainda seu marido, mas fiquei mal com a notícia. Definitivamente eu não sei lidar com a morte, com a perda de pessoas amadas e morro de medo só de pensar (ou saber) que isso faz parte da vida de todo mundo – ir e, pior, ficar.

O Lucas passou um bom tempo da manhã de sábado avisando todo mundo no banco, passando o endereço da igreja onde seria o velório e tal, e depois saímos pra fazer nossas coisas.
Ir buscar a carta de motorista do Lucas, comprar uma bolsa nova pra mim (à prova de roubos e sem traumas..rs), encontrar o melhor caminho de carro até minha faculdade, ir dirigindo até lá pra praticar e etc. 
Por volta de umas 15h30 passamos em uma floricultura e fomos ao velório. Conheci várias das pessoas que trabalham no banco, conhecemos os filhos da Carmen, conversamos amenidades, abraçamos os familiares…
Ficamos algumas horas na igreja e eu me arrepiava e meus olhos enchiam de lágrima cada vez que a Carmen falava de como estava, da incapacidade de dormir, do medo de voltar pra casa, de entrar no quarto do casal, do estado de inanição em que ela se sentia… Não faria sentido algum pras pessoas ao meu redor, por isso segurei muitas vezes o choro que quase veio. 
Choro pela empatia com aquela nova viúva, choro pela lembrança dos que já perdi e choro de medo!
(Não tenho medo de morrer, de verdade. Mas morro de medo da morte dos meus!)

Depois dessas horas na igreja reunimos um pequeno grupo e resolvemos fazer alguma coisa. 
Primeiro fomos jogar sinuca. Depois, já que estávamos ali mesmo, jogamos uma hora de boliche. Em seguida, brincamos em várias máquinas do playland do shopping, máquina de dança, basquete, matar castores, pular, escolher nossa recompensa… 
Por volta de onze da noite nos animamos pra ir dançar! Algumas ligações feitas e decidimos por um bar colombiano em que poderíamos comer comidas típicas e dançar uma boa música latina, onde resistimos bravamente até o dj resolver entrar nas músicas eletrônicas chatas de sempre. E ufa!
Foi um final de dia super eclético, diferente e divertido! Ótimos lugares, ótimas companhias, ótimas comidas…

Mas não pude não pensar de onde raios veio todo esse pique…
Tínhamos acordado cedo com a ligação sobre o marido da Carmen e não dormimos mais…mesmo assim emendamos um programa ao outro, nos divertindo de verdade.

Eu diria que esse é um jeito saudável de lidar com a morte: celebrar a vida!

Acho que todos ficam impactados com notícias assim, mesmo que não seja alguém próximo a você, porque nos faz ter que lidar com a noção da finitude da vida. E faz bastante sentido que, frente à finitude dela, resolvamos sair e aproveitar o que temos de vida nossa e o que temos de companhias.

Talvez a gente devesse celebrar a vida com mais freqüência, sem precisar desses chacoalhões nos assustando, mas sei lá, no dia a dia é mais agradável esquecer dessa necessidade (especialmente por causa do lembrete que ela traz) e seguir na normalidade….

No final das contas, talvez um pouco do susto e da graça esteja justamente na não permanência dessa sensação…


"e a sociedade não gosta, o pessoal acha estranho…"

Durante alguns anos de minha adolescência estudei teatro e tinha muita vontade de seguir a carreira de atriz. Atriz de teatro!
Muitos dos amigos da escola e a maioria dos familiares não entendia muito bem essa última parte. Se eu dizia que estudava teatro a resposta era sempre: “e quando vou te ver na globo???”
Eu achava engraçadinha tal postura, dava risada e respondia alguma coisa que agradasse o lado de lá da conversa –  e que não me desse muita dor de cabeça!
Nesse período não me incomodava “perder” os sábados inteiros no Macunaíma, pelo contrário, eu amava aquilo e se pudesse ir mais vezes, ensaiar mais dias, ficar mais tempo lá..melhor!


Quando estava no final do terceiro colegial um professor da escola de teatro recomendou que eu procurasse uma agência, porque ele achava que eu tinha uma “cara muito boa para televisão”… sem levar aquilo muito a sério, fui atrás da tal agência, fiz uma espécie de book e alguns testes para publicidade; até que fui aprovada para fazer uma propaganda (não me lembro de quê)! 
Mas tinha um detalhe: a gravação seria no mesmo dia que a apresentação de um trabalho final do colégio, que valeria nota x2 para todas as matérias. 
Nesse momento fiz uma escolha e acho que só agora entendo o tamanho e a importância dessa escolha. Estamos cansados de ouvir as histórias dos atores mirins ou jóvens que perdem aula e ficam mudando de escola para poder dar conta da carreira… Eu não sabia exatamente o que viria na minha vida depois daquela propaganda, mas decidi que abriria mão disso para poder apresentar o trabalho no colégio e me formar.


Quando fui pro cursinho ganhei mais responsabilidades, mais amigos, mais “juventude” e aí sim passei a ver os sábados de Macunaíma como “perda”… me irritava não estar na aula super especial do Zé Emílio ou perder o churrasco na casa do tal amigo porque tinha que ir pro teatro e aí tomei a segunda decisão importante da minha vida profissional: saí do Macu com pouco mais de um semestre faltando para a conclusão do curso…


E a junção dessas duas decisões formaram o molde do passo seguinte: mudei de idéia também sobre prestar vestibular para Artes Cênicas. 
Instaurei em mim uma espécie de preconceito que eu já conhecia dos outros: na hora do vestibular eu teria que escolher uma “profissão”, alguma coisa mais acadêmica, com horários fixos, que não me roubassem o fim de semana, que não me confundisse a rotina… De repente, pra mim mesma, o diálogo de “O que você faz?” – “Sou atriz” ganhou aquele ar de estranheza que tantas vezes senti nos outros.


Aí escolhi estudar Terapia Ocupacional. Suspeitava que a TO teria a parte acadêmica – e socialmente bem vista – de “profissão na área da saúde”, me possibilitando ainda explorar e trabalhar a parte artística que tinha descoberto anos antes no teatro… Mas me deparei com o diálogo do “O que você faz?” piorado à sétima potência!
Ninguém nunca soube do que se tratava a Terapia Ocupacional e a sina do profissão – e a maior crise de seus estudantes – era ter que ficar se explicando, se justificando, reforçando a própria identidade e importância.
Me deixava louca aquele chororô de “ninguém sabe o que é isso que eu faço” e mais de uma vez fui mal educada com respostas do tipo:”então explica, mostra sua importância e pára de chorar!”


Aos poucos fui descobrindo que a TO não tinha espaço para minha “veia artística”(hahaha), mas sim para a expressão terapêutica dos pacientes… e isso não era suficiente! Assim como ter pacientes, por si só, não era nem um pouco fácil pra mim. 
Acho que tive que entrar numa profissão com crise de identidade para voltar a questionar a minha própria identidade…


Bom, se teatro era alternativo demais e TO acadêmico demais… qual seria minha alternativa?
Ainda não sei muito bem explicar o porque, mas encontrei no Audiovisual o meio termo… e outra crise!


Acreditava que no AV existiriam alternativas: pode-se ser muito “artista”, mas tendo a possibilidade de ter um contrato com contra-cheque no final de todos os meses. 
Só que, de novo, cai em outra profissão em crise. Crise “pessoal” (se é que se pode dizer isso de uma carreira), não só de mercado.
No AV além de ninguém de fora entender muito bem o que você faz (aqui volta a pergunta do “E quando vou te ver na globo?”), o chororô é quase uma exaltação da escolha: “a vida de profissionais dessa área é ingrata, inconstante, pobre e etc; mas nada disso me importa, porque faço isso com amor”!


Pois é, audiovisual era minha alternativa possível, meu meio termo…nunca meu amor… talvez por isso a crise do “preciso encontrar algo que eu ame fazer” bateu tão forte em mim durante esse percurso!


Aí eu comecei a escrever sobre essa crise, a escrever sobre a vida, a escrever sobre as mudanças, sobre os sonhos, as saudades, as novidades… Escrever muito, além de passar uma porcentagem muito grande do dia lendo.


E assim descobri, ou redescobri, um encantamento enorme por essa forma de expressão. Descobri facilidade, satisfação, críticas positivas (crítica de família e amigo conta nessa etapa..hahahaha)… Descobri até uma simplicidade em me expor que nunca antes tinha imaginado que poderia ter!


À ponto de pensar mesmo em levar a sério essa nova brincadeira de escrever!
(quando estávamos arrumando as coisas para ir pra Portillo e Mendoza eu disse pro Lucas que não sabia se levaria meu computador e ele, muito fofo, respondeu: “leva, claro…vai ficar sem seu instrumento de trabalho?” =D )


E nesse momento vem aquele monte de questionamentos meus: o que que eu estudo pra ser escritora? Preciso de diploma? Se sim, o que eu já quase tenho ou outro? Como posso querer ser escritora sem ter lido tantos clássicos importantes? (estou providenciando a compra de alguns…rs) Como vou fazer pra ler tanto? De onde vou tirar tempo pra levar a escrita a sério? Dá pra ser só isso na vida?


Roubando palavras da amiga Mandy, “ser escritora” combina com o estilo de vida que quero ter – no meu espaço, no meu tempo, do meu jeito – sim, sim…respeitando alguns prazos e regras e tal, eu sei! (rs), mas na minha!


Parece promissor!








E hoje minha mãe me indicou um texto muito bacana sobre a profissão de “escritor”, leiam: Traje para a jornada de trabalho: calça de moletom
Ele traz, na figura do outro, a maioria das indagações que eu mesma faço sobre essa nova possibilidade, o que já seria suficientemente interessante. 
Mas depois dessa leitura não consigo deixar de pensar: estou de novo entrando num caminho profissional que tem crises com “a visão do outro’?!?! OMG! hahaha


Freud explica….
hehehe




Beijos!

Filosofia de sala de espera

Sabe aquela lei no bocejo? A pessoa do seu lado (ou do outro lado do skype) boceja e você já sabe…vai sobrar bocejo pra você também.

Hoje, na faculdade, aconteceu um fenômeno parecido, mas com um espirro. Uma colega espirrou e eu espirrei logo em seguida.

E essa mini sequência de espirros me fez pensar numa coisa muito óbvia, muito simples e até boba: espirros são universais – ou poliglotas, como eu twittei na hora…rs

Pois é, eu aqui, esse tempo todo de observadora estrangeira, prestando atenção nos hábitos, costumes, diferenças…
Catalogando os chilenos de acordo com um monte de padrões novos criados no meu dia a dia…
Sentindo uma pontinha de orgulho por “andar entre eles” entendendo a lingua deles e uma mais…

E aí um simples espirro me dá um chacoalhão – literalmente e metafóricamente.
E fica muito claro que, apesar de algumas diferenças, eu sou igual a eles. 
Oh meu deus! Eu espirro como as chilenas e as chilenas espirram como eu. O mesmo som. O mesmo efeito no corpo. A mesma coçeira no nariz. Tudo igual.
Fale ela português ou não. Tenha ela a experiência de conhecer e vivenciar outra cultura ou não. Tenha ela um ou 15 anos de faculdade.
Nós espirramos igual.

Talvez esse texto esteja um pouco “viagem” demais, mas o efeito que essa simples constatação teve em mim foi daqueles… como um espirro. Aquela coisa óbvia, normal, quase rotineira e que você sente chegando… e que depois que chega vai embora e te deixa com um arrepio diferente, mais limpo por dentro… um pouco sem saber se vem mais depois desse ou não; sem saber como você vai ficar depois dele; sem saber se é uma anúncio de um resfriado – que significaria uma grande onda de espirros consecutivos – ou só uma coisa passageira…
Veremos..



"Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas"

Continuando a história do último post, coloco aqui alguns outros pontos de vista sobre a atual Luta Estudantil no Chile.


Primeiro uma pequena discussão – daquelas boas, que nos fazem pensar as situações, nossa opinião e nossa posição – que rolou no link do facebook onde publiquei a postagem:
http://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=261608977199192&id=536190213


Segundo, um texto da amiga Begoña, chilena, também expatriada – atualmente morando no México – que tem mais do que a política, tem também o coração chileno envolvido nessa história:
http://www.elmartutino.cl/noticia/sociedad/crisis-educacional-en-chile-una-comunicacion-sorda


E terceiro, uma vídeo postado agora há pouco no facebook pelo amigo Luciano. Não conheço a brasileira que fala nele, mas achei interessante olhar a coisa também por esse viés, de alguém que, apesar de ser estrangeiro, parece estar bastante envolvida com a luta toda…





Aos mais interessados pelo assunto, recomendo também que dêem uma garimpada nas notícias a respeito e que não confiem totalmente nos dados (numéricos, principalmente) colocados neste blog ou em um só site de notícia…. faça sua pesquisa e chegue às suas conclusões.




Besos a todos!




"Nas pedras do teu próprio lar"

Convido-os a dar uma olhada nestas imagens (e depois na notícias que as acompanham):


La Tercera


Emol


Há mais de dois meses os estudante estão em greve no Chile. Greve de verdade, com motivo pra valer, organizando marchas toda quinta-feira, tentando negociações com o governo, apanhando dos Carabineiros de Chile (os policiais) – e batendo também. Criando tumultos seguidos no centro, no trânsito, no comércio… Mas sendo ouvidos, sendo vistos, sendo notícias semanais (pelo menos).
Eles brigam por uma educação gratuita de qualidade – aqui colégios e faculdade, particulares e públicos, são pagos, muito bem pagos!


Não sou, nunca fui e nem acredito que vá me tornar uma pessoa “politizada”, mas confesso que me sinto “tocada” por toda essa situação.
O envolvimento dos estudantes é enorme! Eles não estão de greve porque é costume fazer isso nos anos ímpares, nem estão aproveitando a greve como férias extras forçadas. Eles estão em greve pra brigar por uma coisa séria e estão brigando por ela de verdade!


Hoje a briga ficou mais feia! Depois de muitas “negociações” com o governo – que os estudantes classificam como insignificantes – muita ameaça da polícia contra as marchas, greves de fome e do quase fim forçado do movimento, organizou-se duas grandes marchas: uma pela manhã e outra prevista agora para o final da tarde.
Segundo a imprensa, se reuniram pela manhã aproximadamente 6 mil pessoas (estudantes universitários e do ensino médio) em diversos locais da capital, até agora confirmaram 197 presos e 2 carabineiros feridos. O governo está lançando uma série de pedidos pra que se cancele a marcha do final do dia. Pelo andar da carruagem, duvido que vá funcionar…
A confusão das marchas da manhã você viu nas fotos acima. A da noite promete ser pior!
Quando a briga toda estava ainda começando, ou seja, lá pra maio, estávamos fazendo turismo em Valparaiso e vi, em uma casa simples, anônima, no meio de uma ladeira qualquer da cidade, duas placas escritas a mão, apoiando o movimento.
Aquilo me impressionou porque demostra muito bem a sensação que tenho sobre a situação e sobre o Chileno:
Eles estão envolvidos com a luta a ponto de colocar uma simples placa na porta de suas casas, pra que qualquer um que passe por ali saiba sua posição na questão, pra que qualquer um que passe por ali se lembre de que as coisas não estão bem.
Eles estão envolvidos com a luta a ponto de conseguir reunir mais de 6 mil pessoas que sabem que serão atacadas bom bombas de gás lacrimogêneo, que vão apanhar, que podem ser presos…


Isso me intriga, me faz lembrar as histórias e fotos de época de ditadura no Brasil.
E não consigo deixar de pensar: o que será que aconteceu com os brasileiros pra terem amarelado tanto? Ou que será que aconteceu com os chilenos pra continuarem tão duros?


As duas ditaduras não foram tão diferentes entre si, no quesito durezas e duração são bem parecidas na verdade, mas de alguma forma, por algum motivo, os impactos que sobraram nos dois países são imensamente diferentes! Por que será???


Os desenvolvimentos dos novos períodos democráticos também não são discrepantes. Não posso dizer que os chilenos se revoltam porque vivem mal. Como não posso dizer que os brasileiros se acomodaram porque estão muito bem, obrigada.
Por que, então?


Imagino que seja cultural. Alguma coisa anterior da história dos dois que influa no tempo atual. Já conversei com alguns chilenos a respeito e desenvolvemos a teoria da colonização, desde esse período nota-se essa diferença: diz-se que os “brasileiros originais” ou se entregaram ou foram massacrados de cara, enquanto os “chilenos originais” (como outros indígenas da chamada “América Espanhola”) lutaram e resistiram pra serem massacrados só depois. Nota-se isso, inclusive, na presença indígena que ainda existe naturalmente por aqui e que no Brasil não vemos nem sombra.


Mas isso não explicaria o envolvimento dos brasileiros na época da ditadura, em que muito lutaram pelos seus ideais, assumindo e enfrentando as conseqüências disso. Sabemos fazer isso, pra valer!
Não se pode então dizer que “brasileiro é tudo mole”, que se entrega sem lutar. Isso não! E onde raios ficou isso???


Não, eu não gostaria que nosso país fosse caótico, ou que tivesse esse clima de guerra que está por aqui agora. Como também não pretendo me envolver nas brigas chilenas.
Mas não consigo não ficar irritada quando vejo o povo organizando eventos pelo facebook, achando que só porque mais de mil pessoas colocaram lá o “attending” a juventude brasileira está super preocupada com seu futuro! Ah! Vá catar coquinho! E faz o favor de assumir o comodismo instaurado, que isso me parece mais honrado! 




Ps.: Pra tranquilizar os queridos preocupados: minha casa fica suficientemente longe do centro e das confusões e minha faculdade é tão mínima (no sentido físico e literal), que nada desse conflito chega lá. No máximo o trânsito, causado pelas confusões, impede professores de chegarem pra aula (como aconteceu hoje). O Lucas, que trabalha no centro, acabou ficando em casa hoje. Foi melhor assim!