"Nas pedras do teu próprio lar"

Convido-os a dar uma olhada nestas imagens (e depois na notícias que as acompanham):


La Tercera


Emol


Há mais de dois meses os estudante estão em greve no Chile. Greve de verdade, com motivo pra valer, organizando marchas toda quinta-feira, tentando negociações com o governo, apanhando dos Carabineiros de Chile (os policiais) – e batendo também. Criando tumultos seguidos no centro, no trânsito, no comércio… Mas sendo ouvidos, sendo vistos, sendo notícias semanais (pelo menos).
Eles brigam por uma educação gratuita de qualidade – aqui colégios e faculdade, particulares e públicos, são pagos, muito bem pagos!


Não sou, nunca fui e nem acredito que vá me tornar uma pessoa “politizada”, mas confesso que me sinto “tocada” por toda essa situação.
O envolvimento dos estudantes é enorme! Eles não estão de greve porque é costume fazer isso nos anos ímpares, nem estão aproveitando a greve como férias extras forçadas. Eles estão em greve pra brigar por uma coisa séria e estão brigando por ela de verdade!


Hoje a briga ficou mais feia! Depois de muitas “negociações” com o governo – que os estudantes classificam como insignificantes – muita ameaça da polícia contra as marchas, greves de fome e do quase fim forçado do movimento, organizou-se duas grandes marchas: uma pela manhã e outra prevista agora para o final da tarde.
Segundo a imprensa, se reuniram pela manhã aproximadamente 6 mil pessoas (estudantes universitários e do ensino médio) em diversos locais da capital, até agora confirmaram 197 presos e 2 carabineiros feridos. O governo está lançando uma série de pedidos pra que se cancele a marcha do final do dia. Pelo andar da carruagem, duvido que vá funcionar…
A confusão das marchas da manhã você viu nas fotos acima. A da noite promete ser pior!
Quando a briga toda estava ainda começando, ou seja, lá pra maio, estávamos fazendo turismo em Valparaiso e vi, em uma casa simples, anônima, no meio de uma ladeira qualquer da cidade, duas placas escritas a mão, apoiando o movimento.
Aquilo me impressionou porque demostra muito bem a sensação que tenho sobre a situação e sobre o Chileno:
Eles estão envolvidos com a luta a ponto de colocar uma simples placa na porta de suas casas, pra que qualquer um que passe por ali saiba sua posição na questão, pra que qualquer um que passe por ali se lembre de que as coisas não estão bem.
Eles estão envolvidos com a luta a ponto de conseguir reunir mais de 6 mil pessoas que sabem que serão atacadas bom bombas de gás lacrimogêneo, que vão apanhar, que podem ser presos…


Isso me intriga, me faz lembrar as histórias e fotos de época de ditadura no Brasil.
E não consigo deixar de pensar: o que será que aconteceu com os brasileiros pra terem amarelado tanto? Ou que será que aconteceu com os chilenos pra continuarem tão duros?


As duas ditaduras não foram tão diferentes entre si, no quesito durezas e duração são bem parecidas na verdade, mas de alguma forma, por algum motivo, os impactos que sobraram nos dois países são imensamente diferentes! Por que será???


Os desenvolvimentos dos novos períodos democráticos também não são discrepantes. Não posso dizer que os chilenos se revoltam porque vivem mal. Como não posso dizer que os brasileiros se acomodaram porque estão muito bem, obrigada.
Por que, então?


Imagino que seja cultural. Alguma coisa anterior da história dos dois que influa no tempo atual. Já conversei com alguns chilenos a respeito e desenvolvemos a teoria da colonização, desde esse período nota-se essa diferença: diz-se que os “brasileiros originais” ou se entregaram ou foram massacrados de cara, enquanto os “chilenos originais” (como outros indígenas da chamada “América Espanhola”) lutaram e resistiram pra serem massacrados só depois. Nota-se isso, inclusive, na presença indígena que ainda existe naturalmente por aqui e que no Brasil não vemos nem sombra.


Mas isso não explicaria o envolvimento dos brasileiros na época da ditadura, em que muito lutaram pelos seus ideais, assumindo e enfrentando as conseqüências disso. Sabemos fazer isso, pra valer!
Não se pode então dizer que “brasileiro é tudo mole”, que se entrega sem lutar. Isso não! E onde raios ficou isso???


Não, eu não gostaria que nosso país fosse caótico, ou que tivesse esse clima de guerra que está por aqui agora. Como também não pretendo me envolver nas brigas chilenas.
Mas não consigo não ficar irritada quando vejo o povo organizando eventos pelo facebook, achando que só porque mais de mil pessoas colocaram lá o “attending” a juventude brasileira está super preocupada com seu futuro! Ah! Vá catar coquinho! E faz o favor de assumir o comodismo instaurado, que isso me parece mais honrado! 




Ps.: Pra tranquilizar os queridos preocupados: minha casa fica suficientemente longe do centro e das confusões e minha faculdade é tão mínima (no sentido físico e literal), que nada desse conflito chega lá. No máximo o trânsito, causado pelas confusões, impede professores de chegarem pra aula (como aconteceu hoje). O Lucas, que trabalha no centro, acabou ficando em casa hoje. Foi melhor assim!







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