"Foi assim…" – parte 4

(pra começar do começo: Parte 1)


Pois é… a história de parar de doer no carro foi pura ilusão e o meu medo anterior foi justificado!
Os menos de 15 minutos até a Clínica foram os piores minutos do TP! Eu continuava sentindo a dor bem aguda e dentro do carro não conseguia me mexer de jeito nenhum que pudesse ajudar… Tentava “rebolar” sentada no banco mas não rolava… 
A Sil tinha levado uma toalha de rosto molhada pra me ajudar com o calor, mas ao invés de usar como compressa, eu preferi usar como “rebozo… prendia uma ponta com as mãos e puxava a outra com os dentes! Acho que não ajudava muito com a dor, mas na hora do aperto era o que tinha… Fora que segurava uns gritos entre os dentes! rs
Doía muito e, diferente de como vinha sendo até então, nada ajudava a melhorar! Não sei como não chorei – mas soltei uns palavrões em voz bem alta porque tava foda mesmo!! hahaha
Também em voz alta começou a sair meu mantra: “Deixa ela vir…! Deixa ela vir…! Deixa ela vir..!!!”. Era difícil não travar o corpo todo e lutar contra a dor! Eu respirava fundo (quando não travava a mandíbula na toalha.rs) e repetia “deixa ela vir…!” a cada expiração… e ia tipo fazendo “contagem regressiva” do caminho, implorando pra chegar logo!

Já tinham nos explicado como seria todo o processo de admissão na Clínica, então eu sabia que umas coisas chatas me esperavam…
Chegando na maternindade paramos na “zona de acojida” no estacionamento, onde ficam uns técnicos e um monte de cadeira de rodas – sim, é protocolo ter que entrar em cadeira de rodas! Ouso dizer que os técnicos e auxiliares de enfermagem dali não estão acostumados a receber grávidas naquela altura do TP…ficaram todos com caras assustadas ao me ver! E a auxiliar responsável por empurrar minha cadeira era nova na Clínica, não sabia direito pra onde ir ou onde ficava a sala e estava mais nervosa que sei lá o que!
Além disso, ficamos os três super atrapalhados com tudo que tinha pra pegar no carro… A Sil tava engraçada com um milhão de coisas penduradas por todo o lado e tudo meio querendo cair… – incluindo minha bola de pilates! hahaha

No trajeto da cadeira de rodas vi mais uma vez meu corpo trabalhando “como diz o livro”: sabe-se que o frio inibe a secreção de oxitocina (principal hormônio responsável pelo TP). Pois bem.. os corredores da Clínica estavam MUITO gelados e eu fui tremendo de frio na cadeira de rodas…o lado bom (?) disso é que o TP foi realmente inibido e não me lembro de ter sentido nenhuma contraçãozinha nesse caminho…ufa! se no carro tava difícil, imagina na cadeira de rodas!

Encontramos a matrona no corredor e ela guiou a auxiliar inexperiente até a sala de admissão… era uma salinha de exames normal..maca, banheiro, pia, etc…
Quando levantei da cadeira já voltaram as contrações e a matrona ia esperando os (curtos) intervalos entre elas pra me pedir o que precisava de mim – que tirasse a roupa, que subisse na maca, etc…
Então ela fez um exame de toque (primeiro e único em toda a gravidez e trabalho de parto!!!) e disse “bien, Gabi, súper bien!”, ouvi ela comentando com a enfermeira que tava por ali qualquer coisa sobre “um pouco de rebordo”! Acho que a Sil perguntou como estávamos e ela disse que com uns 9 cm de dilatação (!!!)…e felicitou marido e doula por terem conseguido me ajudar suficientemente bem pra chegarmos só nesse ponto na clínica!!!
Uma enfermeira veio atrás da gente pedir pra fazermos os papéis de admissão, o Lucas perguntou pra matrona quanto tempo ainda teríamos de TP, ela disse que achava que 1 hora e pouco e ele disse que então iria fazer a papelada… mas a matrona não deixou, disse que ele precisava ficar comigo! A Sil perguntou se ela poderia fazer e a enfermeira disse que sim, mas a matrona também não deixou! rs
Ela disse que iríamos subir e pediu pra enfermeira que alguém levasse os papéis até a gente – achei ótimo, não queria mesmo que nenhum dos dois tivesse que sair!!

Enquanto Lucas e Sil pegavam as coisas pra mudarmos de sala a matrona veio até mim, olhou nos meus olhos e disse meio baixinho “Gabi, sin anestesia, cierto?!” e foi a primeira vez que a existência da anestesia passou pela minha cabeça durante o TP!
No meu plano de parto eu dizia que queria ver até onde eu conseguiria ir sem anestesia e que se/quando eu quisesse teria que ser uma dose baixa pra eu poder continuar andando… eu tinha deixado a anestesia garantida e tava pronta pra passar um bom tempo lutando contra a vontade de pedi-la – não tinha nem combinado com ninguém pra não me deixar tomar, como já li que muitas grávidas fazem, porque eu queria deixar a possibilidade aberta… Tinha medo, aliás, de tentar resistir além do meu limite e acabar não “aproveitando” a experiência do parto, sabe?!
Mas quando começou o TP de verdade eu simplesmente esqueci que essa possibilidade existia! E esqueci porque não precisei lembrar! Tinha sido tão tranquilo até ali…
Aliás, tinha sido tão tranquilo que eu ainda tava esperando a coisa piorar muito!! Mas eu sabia que, do jeito que tava, dava pra levar na boa sem nem pensar em anestesia! Então respondi pra ela “sin anestesia!” e sentei na cadeira de rodas de novo!

Fomos então pra “Sala de Parto Integral” – uma sala de pré-parto, parto e pós-parto. Chegando lá eu já estava sentindo muita dor e não conseguia me concentrar em nada, mas a Sil me contou que a matrona já chegou ajeitando a sala: fechando as cortinas e baixando as luzes, ajustando o ar condicionado pra não ficar frio, erguendo a cama, etc…
Enquanto isso eu me apoiava do Lucas e tentava entender essa dor nova! A partir daí eu já era mais sensações do que pensamentos…



O nariz do Lucas, a matrona e a dor..rs

Achava que a dor aguda e forte que tava sentindo era só mais uma evolução das contrações e ok, esperava que esse fosse o caminho mesmo… mas tava frustada porque meus balanços já não resolviam, e era bem ruim a sensação de não saber o que fazer com a dor! Me lembro de ficar reclamando que doía e ouvir do Lucas que era assim mesmo e que eu precisava respirar…
(a Sil tinha descido pro carro pra levar a bola de volta e buscar umas coisas que faltaram…)

Continuando os procedimentos protocolares chatos vieram medir temperatura e tirar pressão e, pior, colocar um acesso venoso na minha mão…
Me lembro das mãos da matrona muito geladas (depois o Lucas me disse que ela tremia muito também) e a primeira vez que ela colocou a agulha errou feio…aquele negócio ficou me doendo – a ponto de incomodar mais do que a contração!! – e pedi pra ela arrumar.. o segundo não foi tão ruim, mas continuou incômodo (aliás, me incomodou por umas 6 horas, até deixarem tirar…)



Matrona colocando o acesso e eu já tentando encontrar outras posições



O aparelho da pressão colocado, mas ela esperando passar a contração pra medir!

Eu disse que tava com vontade de fazer xixi e fomos todos pro banheiro (a Sil diz que a matrona fez uma cara de quem sabia que não era bem isso que eu tava sentindo…rs), mas chegando lá não saiu nada… a matrona deu uma olhadinha, disse que tava vendo o cabelo da bebê (ou ela já tinha dito isso no exame de toque?? não lembro!) e pediu pra que eu saísse da privada pra irmos pra um lugar mais seguro pra Cecília! rs

Ela me perguntou se eu estava sentindo vontade de empurrar e eu disse que não…
Eu ainda achava que aquela dor era só uma contração aguda… e tinha lido em vários relatos de parto que quando os puxos começavam era como se as contrações sumissem e ficasse só uma vontade inconsolável de empurrar…o corpo fazendo força sozinho…era isso que eu tava esperando acontecer! Mas não era o que eu sentia!

Mesmo assim, depois que ela perguntou fiquei curiosa e resolvi aproveitar a contração seguinte pra dar uma empurradinha “pra ver qualé-que-era”… e, putz, a empurradinha aliviou a dor!!!
Aí eu disse: “acho que quero empurrar..posso??” (nessa altura eu já tinha desencanado do espanhol..falava em português e bem baixo..só o Lucas ouvia e traduzia…rs), a matrona respondeu que sim, mas ela tava meio longe, fazendo qualquer coisa…(lembro, por exemplo, de umas 3 vezes as enfermeiras quererem me colocar no soro e ela não deixar!!)

Então começaram uns minutos de angústia: eu tinha entendido que aquilo era vontade de empurrar, mas não fazia idéia de como fazer! E choramingava: “quero empurrar mas não consigo! Não sei fazer!”. Sil e Lucas me apoiavam e diziam: “sabe sim! Se você tá com vontade, faz!” e eu pensava: “seu eu soubesse eu fazia..tô falando que não sei, porra!” hahahaha
Até que um deles me disse: “solta seu corpo que ele sabe fazer, Gabi!”.. e essa frase foi meio libertadora!
Faltava isso: como meu corpo não tinha “assumido o controle” na forma dos puxos involuntários e incontroláveis, eu precisaria me soltar, soltar o controle pra deixar meu corpo agir… e aí eu soltei!
Soltei e as pernas caíram, fui parar numa posição meio de cócoras e fui deixando, a cada contração, o corpo descobrir como empurrar – não foi fácil, não foi natural, não foi por instinto – eu não sabia mesmo!… e fui aprendendo a empurrar – aliás, em determinado momento a matrona colocou a mão no meu períneo e disse “empurra aqui, Gabi” e foi a melhor coisa…acho que só aí meu corpo entendeu direitinho o que tinha que fazer!

A matrona sugeriu que eu usasse a barra da cama pra me apoiar e foi ótimo! 



A de Amor

Fiquei um tempo empurrando assim – ainda no processo de aprendizagem e em algum momento ouvi a matrona ligar pro meu médico e pedir pra ele vir logo porque eu já tava empurrando! (depois me contaram que foram várias ligações nervosas pra apressar o médico – que tava a caminho da praia…ninguém esperava que eu estivesse tão “a ponto de parir”!!!)
Até que segui o pedi do meu corpo e inverti o lado:


 
 

 Assim era bem melhor pra empurrar, mas aí eu não tinha o apoio da cama pra descansar no intervalos das contrações e já estava com as pernas bem cansadas, então o Lucas me segurava assim:


A de Apoio
 
 

Nessa foto aí de cima dá pra ver meu médico colocando a luva. Ele chegou silencioso (eu nem vi), se preparou e sentou aí onde ele tá na foto… Sentou e ficou me olhando… Num intervalo de contração olhei pra ele pela primeira vez e ele me sorriu..um sorriso tão tranquilo, tão sereno, confiante e ao mesmo tempo “apoiador” que aquele olhar ficou gravado na minha memória e até agora me enche de carinho quando lembro!!!

(diferente dele, teve uma hora que o pediatra entrou na sala maior empolgado, gritando um “buenas tardes”, até que percebeu a situação em que estávamos e ficou constrangido! hahahaha – isso me contaram..eu só percebi um barulho a mais rapidamente…rs)

Ficamos um bom tempo nessa posição…o médico me olhando, a matrona atrás de mim e o Lucas me apoiando – não sei onde tava a Sil e nem vi nenhuma dessas fotos ser tirada! Mas de quando em quando eu pedia água e ela me trazia!
Umas 3 ou 4 vezes a matrona veio com um dopler portátil escutar os batimentos cardíacos da bebê… Me disseram que rolava uma mini tensão na sala cada vez que ela encostava e ficava procurando o coração da Cecília…eu não percebia, mas lembro que respirava melhor – e com mais força pra continuar – cada vez que os batidos saíam baixinho daquela maquininha!

Depois de algum tempo assim a matrona veio falar comigo..me explicou que a cabeça da Cecília estava batendo no meu osso púbico e por isso não conseguiria passar naquela posição..me pediu pra virar e subir na cama.
Subi e fiquei sentada bem na pontinha, tão na pontinha que eu escorregava muito! O Lucas subiu na cama atrás de mim e me segurava pela axila, a matrona e a Sil ficaram responsáveis por apoiar cada uma um joelho meu (por isso não tem foto dessa parte) e o médico sentou na minha frente.
Não era confortável ficar escorregando (toda hora o Lucas tinha que me puxar pra cima de volta) e tive que reaprender a empurrar na nova posição…
Me disseram que fiquei muito tempo empurrando assim…com a cabeça dela prestes a sair, já meio coroando… Me ajudaram uma hora a me inclinar de um jeito que conseguisse enxergar (tinha uma barriga no meio do caminho! rs) e eu vi uma coisa preta, pontuda e gosmenta…não acreditei que aquilo era a cabeça dela, achei que era uma gosma qualquer que ia sair antes! hahahaha Mas era sim a pontinha do cone cabeludíssimo que era a cabeça dela nesse momento!!!

Não sei quanto tempo foi e nem senti que foi tanto assim que empurrei “em vão”… só sei que em algum momento a matrona veio empurrar minha barriga e fiquei puta! rs Soltei um grunhido qualquer, o Lucas entendeu o recado e pediu pra ela parar! Humpf! (viu como minha birra com “a matrona substituta” não era tão infundada assim??rs) 

Aliás, fun fact: o Lucas atrás de mim tinha que fazer uma força contrária a minha pra não me deixar cair! Eu escutava ele respirar forte e ritmado e achava que fazia pra guiar a minha respiração…até teve uma hora que a matrona me pediu pra segurar o ar e eu ri, porque o ar que ela tava ouvindo soltar era do Lucas, não meu! rs Só depois do parto é que eu entendi que ele respirava daquele jeito porque tava bem difícil me aguentar, coitado…rsrs

Matrona e médico começaram então a me pedir pra empurrar com mais força e por mais tempo (“pujos muy fuertes y largos”), porque a Cecília não tava saindo! 
Lembro de respirar fundo pra tentar me concentrar e de pedir pra ela “vem, filha..vem!!!” a cada vez que segurava o ar e empurrava com muita força!!! Eu pedia porque estava cansada e queria que terminasse logo, mas, mais do que isso, porque aquela ansiedade que não tinha vindo a gravidez inteira finalmente tinha tomado conta de mim: eu queria minha filha no meu colo e eu queria AGORA!!!


Mais uns puxos assim e, finalmente, senti a cabeça dela saindo!!! Não senti o tal círculo de fogo queimando, mas lembro que a contração em que a cabeça saiu foi bem mais forte e dolorida do que as anteriores – enquanto tava nessa de empurrar já não sentia a dor aguda das contrações (empurrar aliviava, lembra?)…mas essa contração específica eu senti direitinho – senti a onda começar a vir, senti doer e consegui usar isso pra empurrar a cabeça da minha filha pro mundo!
Vi uma movimentação do médico mas não prestei muita atenção…respirei fundo, “descansei” e esperei a contração seguinte, quando empurrei mais um pouco e saiu o resto do corpinho, com aquela sensação de “quiabo escorregando” que todo mundo fala! Uma delícia!!! Pluft!!! Cecília havia chegado!!!!



Ufa!!!! 
O resto fica pra amanhã!! 😉

(continua aqui)

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16 pensamentos sobre “"Foi assim…" – parte 4

  1. Ahhhh! Eu li este relato 4 parecendo uma louca que tá descobrindo o segredo do tesouro escondido. Maridex se arrumando pra ir pro trabalho rindo da minha cara. Gabi, muito obrigada por compartilhar conosco como foi este momento tão íntimo e importante da sua vida. É tão lindo!!!
    Beijos, Rita

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  2. Amei! Estou amando! Super realista, pé no chão, pouco romantizado, muito real, o teu relato tem sido fantástico, Gabi. Esse negócio de que a gente sabe empurrar pq vem o instinto, eu sempre duvidei que fosse assim para 100% e vc foi muito transparente em dizer a real. Lindo.

    Agora me conta (curiosidade de quem vai passar por um destes daqui 7 meses): quando empurra e não sai (a fase de ficar empurrando), é desesperador de dolorido? Dói o períneo, dói o corpo, parece que vc está sendo rasgada ao meio??? Hein?

    Beijos grandes!!

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  3. Que bom que dá pra sentir a honestidade, Dani..fico feliz! =)

    Oh, não senti isso tudo aí, não… eu sentia ela vindo e voltando (manja intestino preso??? hahaha), mas não doía o períneo, não ardia… pelo menos não que eu me lembre – e acho que se me sentisse rasgada ao meio, me lembraria!! rsrs

    Beijo grande!

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