Quiçá

Tenho o tempo que o marido demora pra ler um gibi pras crianças pra escrever.

Valendo!

Só porque sim, porque tô com vontade e porque lembrei que, às vezes, pra escrever, só preciso de um página em branco na minha frente.

É verdade que a tal página não é garantia de nada. Às vezes ela só me encara e nada acontece – ou a brancura vira neblina, que vira pressão, que vira impossibilidade.

Mas na energia do momento (Mercúrio e Marte andam dançando por onde, hein?!) a página vazia tem servido de combustível esvaziante. Ou o contrário, né, porque escrever transborda, mas, ao mesmo tempo, preenche.

No tempo do gibi não cabem grandes produções. E o vazio, em si, não é uma grande promessa. (mas pensando bem, até que pode ser)

Ninguém falou que ia sair texto bom. hahaha

Mas que gostoso que é colocar palavras pra fora, ocupar espaços – meus e do papel. Lembrar de usar a voz escrita que foi tão minha por tanto tempo.

“Não textos” viraram minha especialidade.

Mesmo assim, venha me ler. Não prometo respostas, indicações, dicas imperdíveis, reflexões implacáveis.

Não faço promessas, aliás.

Uso o vazio para ser e convidar a existências outras – minhas aqui e suas aí do outro lado.

Porque se eu posso terminar essas poucas linhas mais leve, de tão preenchida, talvez você também possa se alimentar do petisco das possibilidades.

Current Being

Me dei conta hoje de que no aplicativo Good Reads (que serve pra registrar e acompanhar os livros que vamos lendo) consta que tenho 8 livros na estante “Current Reading”. Destes 8, apenas 1 foi abandonado há mais de um ano – mas continua neste estante porque pretendo retomá-lo em algum momento possível. Os outros sete eu estou, mais ou menos, lendo atualmente. Tudo ao mesmo tempo agora. Dá pra acreditar?

Eu nunca nem achei que meu cérebro seria capaz de ter sete livros em aberto (ainda que não todos abertos ao mesmo tempo..rs) e cá estou eu. Sete leituras ativas porque o desejo de ler todos esses livros é alto o suficiente. Um desejo que gera libido suficiente pra que caiba revezamento. Ou seria uma libido que gera desejo suficiente? Sei não..hahaha

Fato é que me percebi começando o ano de 2024 com sede. Com fome. Com gana. Com vontade.

De ler todos os livros do mundo (ao mesmo tempo, aparentemente hahaha).De escrever um sonhado meu, quem sabe. De conseguir (mais) coisas que eu achava impossíveis. De fazer os exercícios que não pareciam ser pra mim. De concluir tarefas infinitas. De encontrar coisas que peçam de mim apenas, e totalmente, eu mesma.

Comecei o ano (mas num belo ato falho, escrevi “acordei”, porque é bem essa sensação) . Acordei o ano querendo querer. Querendo ser querente.

Abraçando mundos que matem a minha fome e deixem vontades de mais.

Não sei até quando essa pilha toda dura, mas enquanto dá, sigo. 7 livros por vez. hahaha

Bora?

“Te escrevo mais uma carta de amor”

“Filha:

Faz tempo que não te escrevo uma carta…

Hoje você faz 10 anos e acho que pela primeira vez consegui te dizer com palavras a lista enorme das coisas lindas que desejo pra sua vida! Talvez você ainda não as compreenda completamente, mas que sensação gostosa é dizer em voz alta as coisas que há anos registro em cartas nesse blog!

Depois do boa noite, você disparou uma conversa existencial sobre vida e morte, presente e futuro, vontade e responsabilidade e mais um montão de coisas que nos levavam a concluir que crescer é muito complexo!

Eu pude te dizer do orgulho e da honra que é assistir essa belezura acontecendo. Pude agradecer a confiança e me colocar a disposição.

Em voz alta, pra você ouvir, repeti promessas que te faço desde antes de você existir. Essas que não quero que você esqueça e que guiam todas as minhas escolhas e (sempre que possível) minhas reações nas interações mais difíceis com você.

Mas fica aqui o registro por escrito também: Compartilhar a vida com você, Cecília, é precioso demais e eu prometo fazer jus a esse lugar especial que você (ainda) me permite ocupar.

Conhecer suas humanidades e imperfeições me permite abraçar as minhas também. Amar TODOS os seus pedacinhos me ensina sobre a potência do amor. Assistir você descobrindo lugares diversos no mundo, me lembra que o lá fora é meu também.

Então é assim, meio esburacada, que me ofereço inteira.

Sempre. Pra sempre.

Há dez anos e por quantos mais nós tivermos.

Feliz aniversário, meu amor!”

Uma década

Hoje é 23 de janeiro de 2024.

Há 10 anos eu terminava meu dia em um passeio com a Maní, sozinha, curtindo a brisa fresca do entardecer ainda claro.

Foi descendo a Avenida Providência, quase chegando no Clube, que senti uma dor esquisita na costela esquerda. Uma repuxada que acendeu meus alertas e marcou meu cérebro a ponto de eu me lembrar até da luz daquele momento. Cecília vinha chegando.

Voltei pra uma casa agitada, onde recebíamos amigos queridos para uma “noitada de RPG”.

A Sil, minha doula e melhor amiga, já tinha chegado do Brasil. As malas estavam prontas, o médico havia voltado de férias.

Estava tudo certo. Cecília já podia vir.

Eu brinquei que ela escolher aquela noite de jogatina pra sua chegada seria como carimbar “nerd” na própria testa. E foi essa noite que ela escolheu.

Ou melhor, a madrugada em que a noite se emendou foi sua escolha… foi ali que tudo começou.

Já era dia 24 há umas 3 horas quando acordei sentindo as primeiras contrações. E já estávamos na 18a hora do dia quando minha Chinchila chegou.

Minha memória tem tantos, tantos detalhes desse dia…

É muito louco retomar esse relato daqui do futuro, 10 anos depois.

Eu era loucamente apaixonada pela Maní e, enquanto ela não desgrudava de mim durante o trabalho de parto, eu pensava o quanto queria muito que ela vivesse o suficiente pra ser parte da vida e das memórias da minha filha. Uma década depois, o coração se enche de alegria por saber que minha amendoinzinha ainda é parte importante da nossa família!

O parto da Cecília, que eu tanto sonhei e desejei, segue sendo uma das experiências mais incríveis e lindas que já vivi.

O Lucas, parceiro de planos e ações e contrações, meu lar no mundo, pai babão da pacotinha que vinha chegando, segue sendo minha dupla nas aventuras da vida.

Mesmo tantos anos longe dos países hispânicos, meu português segue sendo um portunhol meio bagunçado – como pode-se notar em todos os “segue” dessa lista… hahaha

Esse blog, apesar de ser velho, ultrapassado e bastante abandonado, continua sendo meu refúgio…

Cecília não é mais um desejo, um plano, um sonho… é uma pessoa inteirinha. Há dez anos, alías.

Que coisa linda é assistir aquela bolinha de gente crescer, se descobrir, se tornar ela mesma!

O carimbo de nerd na testa eu até acho que ainda tem validade, mas a parte que mais me encanta (e desafia, talvez) nesses anos de maternidade é a percepção constante de que a Cecília é a Cecília. Ela não é uma projeção, uma idealização, uma massa a ser moldada. Ela não é o que eu gostaria que ela fosse. Ela não é contrário disso também. Não é perfeita, não é (só) impressionante, só difícil… não é o resultado absoluto dos meus esforços, não é espelho dos meus erros ou acertos. Ela não é minha.

Ela é só – e completamente – um ser humano (ainda em formação) dela mesma.

E eu tenho a honra de caminhar ao lado dela – ou embaixo dela, porque ela ainda ama estar em cima de mim hahaha.

Dez anos inteiros de assistir uma vida se fazer, é muita coisa – mas é tão pouco comparado aos meus muito mais do que isso… rs

Uma década é tempo o suficiente pra ela estar também se percebendo, se conhecendo, escolhendo seus caminhos… se aproximando de novas fases…

Em algumas horas fará 10 anos que eu recebi em meu colo aquele pacotinho quente e úmido.

Há 10 anos que eu tenho dificuldade de acreditar que um negócio tão incrível assim é real.

Surreal, aliás, é a palavra que tomou conta da minha cabeça e do meu coração há 10 anos.

Ainda que a cada dia, a cada hora, a realidade e concretude da vida com a Cecília me assombre e encante, é surreal pensar no tamanho da sorte que tenho.

Há 10 anos.

(o relato de 10 anos atrás pode ser lido nesse link )

Marcas

A casquinha cicatriza a escolha.

A coçeira não deixa faltar o cuidado.

Na pele, mais pedaços do eu se expõem.

O corpo como um cartão de visitas meio às avessas que, de cara, passa informações sobre mim que na verdade, o outro só pode compreender se me conhecer de verdade, com tempo…

Por que eternizar no concreto, se as importâncias não deixam nunca a cabeça ou a memória?

Machucar pra marcar. Cuidar pra curar e, assim, poder ficar. Mostrar sem contar. Não deixar (de) ver.

Injetar a tinta pra apreender. Tatuar pra não deixar de ser.

Eu.