“Um brilho cego de paixão e fé” (parte 3)

Levei a manhã normalmente, ainda que me sentindo super podre da gripe. Cecília voltou da escola bem jururu… Comecei a desconfiar que tínhamos poucas chances de conseguir ir à noite no evento que tínhamos programado no MBA do Lucas…
Quando por volta de 2h30 tarde me deitei no chão ao lado da cama da filhota, pra esperar que ela embarcasse na soneca, notei que as contrações estavam frequentes (“ainda ou outra vez?”) e ardidas.

“Ardidas!?!”

Me faziam lembrar perfeitamente das dores das contrações do primeiro parto – dores que eu havia esquecido há muito tempo.

Umas 3 e pouco, comecei a contar as idas e vindas delas no aplicativo e  ficou claro que elas não paravam de vir, mas vinham sem ritmo nenhum!

Na minha cabeça até que fazia sentido, afinal, “eram só os pródromos” – comecei, aliás, a me preparar psicologicamente pra ter uns 10 dias de pródromos (esperando o dia 21) e me preocupava, “putz.. Será que fica direto ardido desse jeito?”

Não conseguia mais não marcar cada contração que vinha… 20 minutos de intervalo, depois 9, depois 20, depois 13, depois 22, depois 6… Os intervalos não faziam nenhum sentido, mas elas continuavam a vir, ardidas, incômodas, seguidas…

Eu conhecia aquela dor. Da última vez que a senti, terminei o dia com uma bebéia no colo. Mas da última vez ela já tinha começado ritmada. E esse “tempo X intensidade” tão contraditório (quanto os meus desejos) me deixou confusa…

Racionalmente eu tentava me convencer de que não era nada “vc não cansou de ler relatos de parto com diaaaas de pródromos? Te prepara, que é a tua vez!”

Mas lá dentro eu sentia… Eu sabia que era mais!

Depois de uma hora dormindo no quarto, a Cecília veio me encontrar na sala, ofereci meu colo e ela logo voltou a dormir. Eu aproveitei e abracei forte, beijei, (tentei) senti(r) seu cheirinho… E comecei a chorar!

Eu sentia.. Eu sabia… Tinha chegado a tal hora das mudanças que esperávamos há meses! Queria aproveitar o máximo desse resto de tempo que tínhamos de “só nós duas” e fiquei lá, mais de uma hora numa posição absolutamente desconfortável, respirando fundo a cada contração que continuava a arder!

fiz questão de registrar, porque sabia que era um momento especial…

 

Umas 17:30 achei que seria de bom tom avisar o Lucas que “algo estava acontecendo”… Eu continuava discutindo comigo mesma – “é pródromo!”; “não é!”, mas “vai que…”, né?!

Mandei mensagem contando que estava há horas com contrações, mas que não era nada, que podia ficar dias assim. Pfff! O bichinho ficou nervoso! rs “vou pra casa!” – não precisa!. “Liga pra médica” – não é hora ainda. “Pede pra alguém ir ficar com você” – não quero!
Eu só queria continuar ali, deitada com a Cecília… Continuar meu dia normal e não ficar ansiosa, pra poder descobrir de verdade o que estava acontecendo.

E foi o que fiz! Quando ela acordou fui lavar e pendurar roupas, fizemos nosso lanche da tarde e entramos no nosso banho, como sempre! Só que dessa vez tudo temperado com contrações e muita tosse. E o banho com uma função especial: “se for pródromo, o chuveiro acalma!”

Entre me lavar e dar banho na Cecília, uma contração sem dor nenhuma: “há! Não disse que não era de verdade?!” com aquela satisfação por estar certa e aquela chateação por estar errada… rs

Mas justo quando ia abaixar pra fechar o chuveiro vem outra, ardida, forte. Uma que não deu pra ignorar; que pediu que eu me mexesse pra deixar ela passar… Então rebolei! rs

E a Cecília, curiosa:  “O que vc tá fazendo, mãe?” “Tô rebolando “. “Porque tá doendo sua barriga?” “É, filha!” “Então rebola, mãe, é melhor”!!! ❤ !!!

(Já contei pra vocês que ela viu vários vídeos de parto comigo ao longo da gravidez?!? rs)
Enfim, concordei que era melhor o Lucas vir pra casa, mas continuei na rotina normal com a Cecília. Contradição, lembram?! Hehehe

Ele chegou em casa rindo, tinha visto o gráfico do aplicativo das contrações que mandei pra ele

(Monicas Gellers que estejam lendo, maior legal esse aplicativo de control freaks, recomendo! Hahahaha)

E abriu a porta falando “só você acha que não tá em trabalho de parto!” Hahahaha

Que alívio ouvir essa frase! Tecnicamente eu sabia que não era TP, mas … Eu também sabia que era! Que bom sentir que eu não estava sozinha na tal percepção! rs

Só aí me permiti entrar no “modo parto”: fui terminar o que faltava nas malas, ligar pra médica, ajudar o Lucas a definir com os amigos a questão da Cecília, explicar pra ela que o Dante ia nascer(!!!), etc.

Quando falei com a médica as coisas continuavam na mesma: dor ardida e contrações sem ritmo. Como já estava assim há mais de 4 horas ela me sugeriu três opções: 1- esperar em casa pegar ritmo;2- ir pro hospital avaliar e se fosse cedo ainda ficar ali por perto, talvez só subir pro quarto ou 3- ir pro hospital e já internar mesmo. Optei pela segunda, pela distância do hospital e aquele medo de a coisa estar muito avançada na estrada…rs

 

Ainda demoramos mais 1h pra sair de casa, deixamos a Maní com uns amigos, a Cecília com outros e fomos pra Madrid. Nesse meio tempo também avisei a fotógrafa e uma parte da minha família – até porque a agitação fez com que as contrações finalmente ganhassem ritmo – ainda que 1 a cada 9 minutos não fosse lá sinal de TP ativo…rs

No carro elas já tiravam minha concentração, mas estavam absolutamente suportáveis – “ainda bem que viemos agora!”. Mesma coisa no cardiotoco que tive que fazer na chegada ao hospital – “se eu tivesse em TP mais avançado estaria puta de ter que ficar deitada aqui esse tempo todo”

Eram umas 10 da noite. “Contrações a cada 7 minutos. 4 cm de dilatação. Com certeza você tem que passar a noite aqui!”
“Uia! Não é que é mesmo?!”rs

Um misto de surpresa, com “eu já sabia”, com “ufa! Que bom!”, com “putz.. Já, filho?!”
Ok, ok.. Mas a gente pode ir jantar antes??
Fomos num bar ali do lado. Lucas quis um hambúrguer, eu, uma salada (“pode ir jantar, mas nada muito pesado”)

Lucas pediu pra não demorarem e já trazerem logo a conta também  “ela está em trabalho de parto, a gente pode ter que sair correndo a qualquer momento!”

A garçonete deve ter ficado nervosa, porque minha salada chegou voando, mas toda mal feita, alface super molhada, lavada às pressas, imagino, eca!.. Morri de inveja do hambúrguer e devorei as batatas fritas do Lucas. “Salvadoras batatas!”

No bar constatei que depois do exame de toque o intervalo das contrações tinha caído pra 5 minutos e tinha começado a sair o tampão “será que essa mulher descolou membranas???”  (depois a minha matrona disse que conhece a médica que me examinou e que ela não faria isso sem me falar nada..)

De qualquer forma, fiquei meio ansiosa e quis voltar logo pro hospital. Chegamos de volta junto com a Eva, fotógrafa e subimos para o quarto.

O plano era ficar por ali, de boas, como se estivéssemos num hotel, esperar o TP engrenar mais pra descer pro paritorio. Mas o quarto era tão minúsculo e apertado que assim que a médica e a matrona chegaram e deram essa opção, quis descer pra “começar a brincadeira num lugar mais legal”!!!

Continua….

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