"No sinal fechado"

Primeiro os fatos:

Terça-feira eu estava no ônibus voltando pra casa, num misto de alívio com irritação (por acontecimentos pontuais e pelo meu espírito da semana), determinada a relaxar e curtir meu livro, sentada na frente da porta. Até que o ônibus pára num ponto, um moleque desce o colega dele agarra minha bolsa e desce correndo atrás dele!

Fiquei alguns micro-segundos parada, sentada ali com uma cara de inconformada, sem acreditar que aquilo tinha acabado de acontecer e por um impulso que não sei de onde veio, desci do ônibus. Mais alguns micro-segundos parada na calçada; tempo suficiente pra pensar: “quais as minhas opções agora? Não tenho celular, nem carteira, nem cartão do ônibus…acho um telefone público (raríssimo nessa cidade) pra avisar o Lucas e vou andando pra casa (não, eu não estava perto)”. Mas aquele mesmo impulso de antes, misturado com um inconformismo ao máximo nível, me fizeram gesticular e gritar qualquer coisa (99% de certeza que em português). Eu ainda via os caras correndo na minha frente, e simplesmente não sabia o que fazer! 
Até que vejo passando por mim, correndo, um menino que, tenho quase certeza que tinha acabado de descer do mesmo ônibus que eu, sacou o que tava acontecendo e saiu correndo atrás dos dois ladrões! Aí percebi que tinha que sair correndo atrás dele, que estava atrás dos ladrões, que estavam fugindo com a minha bolsa, que tinha todas as minhas coisas dentro.
Eles viraram a esquina e nós atrás, mais um quarteirão de correria e o meninos que estava me ajudando pára, me olha e diz: “não estou mais vendo eles!”. Putz, de novo, “e agora?.
Aí me dei conta de que todo mundo na rua tava participando da história. Quando pensamos em parar um cara sai de dentro de um carro forte e aponta “eles foram pra lá” e todas as outras pessoas em volta também apontando e ajudando. Nessa hora surge um outro cara correndo, sei lá eu de onde, muito mais rápido que eu e o outro menino. Nós dois voltamos a correr também, mas já sem fôlego e ficando cada vez mais trás.
Até que esse segundo cara que entrou na correria – vou chamá-lo de Baiano, depois explico – surge dentro de um taxi, me chamando pra entrar. Agradeci o primeiro menino e corri pro taxi, que subiu na calçada, fez uma virada maluca e começou a ir atrás dos moleques.
Tinham sido duas quadras e meia correndo, depois mais uma e meia perseguindo eles no taxi até que vemos os dois virando outra esquina e o farol na nossa frente fechando. Pois o Baiano não pensou duas vezes: pulou do taxi, que ainda não tinha parado de vez, e saiu correndo. Quando o farol está pra abrir vejo que ele pegou uma carona numa moto, que não sei de onde surgiu, e ia, em pé nela, gesticulando e pedindo ajuda de outras pessoas.
Ele conseguiu pegar os dois, o taxista desceu atrás e juntaram mais umas três pessoas que estavam passando – uma delas de carro. 
Eles deitam os dois no chão, o Baiano tira o cinto, o taxista vai até o carro pegar um cacetete e os dois começam a bater muito nos dois moleques.
E foi juntando gente, uns gritando “mata! mata!”, uns gritando pra chamar a polícia e um menino, com uniforme de colégio pedindo pra eles pararem.A ponto de se jogar em cima dos moleques e levar umas pancadas também, pra conseguir fazer a pancadaria parar.
Eu, desesperada, tremendo mais do que sei lá o que, pedia pra alguém chamar a polícia, olhava pra todos os lados e ficava repetindo “que que eu faço? não sei o que eu faço!”
Os moleques já não estavam mais com a minha bolsa, disseram que tinha jogado no meio da caminho durante a perseguição (que nem fez o que roubou minha carteira na primeira semana aqui no Chile, lembram?)
Enquanto eles estavam todos preocupados em bater, xingar ou intimidar os moleques, eu só queria saber onde estava minha bolsa! No meio da correria eles deixaram cair a caixa dos meus óculos escuros, com eles dentro, e eu consegui “parar” pra recolhê-los. Mas e o resto das minhas coisas???

Bom, os moleques já estavam sangrando a essa hora e o Baiano – um cara baixinho e magrela – estava muito puto! Xingava muito os dois, dizia pra eles: “olha como vocês deixaram a menina!”, chutava, gritava…tava bravo pra caramba!!!
Resolveram levar os moleques até uma esquina, sentaram os dois numa banca de jornal, tiraram tênis e cintos dos dois…
Algumas pessoas vinham me perguntar o que eles tinham roubado e se eu estava bem. Mas veio um senhor muito fofo (enquanto levavam os dois pra esquina), pegou no meu braço, pediu pra que eu ficasse calma, chamou uma mulher que estava participando da coisa toda e disse: “você entendeu que é dela que você tem que cuidar agora? Deixa que os outros cuidam dos dois..”. Ela me pegou pelo braço e foi caminhando comigo até a esquina. Achei o gesto daqueles dois uma coisa linda!
Quando cheguei na esquina estavam chamando a polícia.

Bom, eu continuava querendo saber da minha bolsa, os dois apontavam onde tinha jogado e eu fui lá, acompanhada de um outro cara, pra procurar. Reviramos todos os arbustos que encontramos e nada da bolsa! Voltamos pra esquina e os dois insistiam que tava lá, então voltei a procurar. E nada!
 Comecei a perguntar pras pessoas na rua mas ninguém tinha visto a bolsa, só os moleques passando correndo, mas não sabiam dizer se ainda estavam com a bolsa ou não.

O Baiano se irritou de novo e voltou a bater nos dois pra eles falarem onde estava a bendita bolsa; levantou um deles pra que ele fosse mostrar onde estava e eu fui indo na frente. Aí veio uma mulher falar comigo, com uma cédula de identidade na mão, me perguntando o que tinha acontecido. Ela perguntou meu nome, comparou com o documento que tinha na mão e disse que tinha achado a bolsa, jogada numa esquina anterior. Veio um pouco do alívio!
Corri pra trás pra avisar o Baiano que tinham encontrado a bolsa, que ele podia voltar com o moleque. E nessa hora o maldito do moleque vem querer colocar a mão no meu ombro pra me pedir desculpas! Que ódio!!!!

Voltei pra mulher que estava com a bolsa e tinha se juntado a ela uma outra senhora – elas trabalham juntas no lugar onde a bolsa tinha sido jogada – que ficava me dizendo: “eu já liguei pra lucas, você tem que falar com lucas”.  Eu achei que aquilo era algum outro apelido chileno pra “polícia” (serve polícia, carabineiro, paco…pq não lucas?) e respondia: “sim, já chamaram os carabineiros, eles estão vindo”. Até que ela: “Lucas! Não é seu marido?”
Hahahahaha
Naquela confusão toda eu nunca teria pensado sozinha que o Lucas que ela estava falando era o meu Lucas ou como ela tinha conseguido falar com ele..hahaha
Elas acharam meu celular na bolsa e ligaram pra ele pra avisar que estavam com minhas coisas! 
Me recomendaram que esperasse a polícia chegar antes de ir lá buscar a bolsa, pra não voltar pra muvuca com as minhas coisas todas. Me emprestaram um celular, de onde consegui falar com o Lucas, que já estava num taxi indo até mim!

Voltamos então pra esquina e a polícia estava chegando!
As coisas foram se acalmando, conversei um pouco com as pessoas que estavam ali ajudando. Descobri que o Baiano já morou em São Paulo um tempo e é casado com uma baiana – pronto, apelido explicado! Apesar de ele estar muito nervoso e de ter batido muito nos caras (violência com a qual eu não concordo), ele foi muito meu herói, era muito simpático e bacana!

Bom, os moleques foram colocados na viatura da polícia, a multidão se dispersou, o Baiano soltou seu último ato de raiva, jogando os tênis e cintos dos ladrões no meio da rua, um carabineiro foi com a moça buscar minha bolsa..
Os carabineiro pediram que eu fosse com eles até a delegacia, mas antes essa moça que achou a bolsa e o Baiano deram o depoimento deles ali mesmo, assinaram tudo e tal..Me abraçaram e foram cuidar da vida.
Falei com Lucas, passei o endereço da delegacia e combinamos de nos encontrar lá.
Entrei na viatura e só aí respirei fundo. Primeiro me acalmei. Depois fiquei com medo que me levassem pro mesmo lugar que os dois moleques.
Na delegacia não vi os dois, mas soube que estavam lá, que tinham 16 e 17 anos e que não era a primeira vez que roubavam, mas era a primeira vez que os pegavam em flagra, com o item roubado. Os policiais pareciam bem felizes de ter os dois lá.

Aí foi aquela burocracia, espera, depõe, assina, tiram fotos de tudo que tinha na bolsa, estimando preços das coisas mais valiosas…aceitar ir depor em tribunal caso isso vá pra juízo, o aviso de que se isso acontecer eles me fantasiam pra me colocar na frente do tribunal (“que nem filme americano”,  como disse o carabineiro).
E foi isso.



Chamem de mimada ou privilegiada, mas acho que essa foi a situação de maior nervosismo, maior medo e maior violência pela qual já passei. Violência pra todos os lados.
Enquanto os meninos eram espancados eu sentia muita raiva da situação; se não tivesse sentada tão perto da porta, se não tivesse tão distraída, se tivesse visto eles jogando a bolsa lá trás…..Nada daquilo estaria acontecendo!
Odiei e amei os chilenos muito forte ao mesmo tempo! Os dois moleques que me roubaram estavam muito bem vestidos e não eram peruanos ou bolivianos – como diz a lenda/preconceito daqui! Todas as pessoas em volta se envolveram e ajudaram, diziam que eles mereciam ser presos, ou continuariam fazendo a mesma coisa por aí e eu concordo plenamente! Mas não acho que tinham que ter batido tanto nos dois, como também não acho que eles vão de fato ficar presos – não por um roubo, sem ameaça ou agressão – como o policial fez questão de destacar.

Pois foi esse roubo, sem ameaça ou agressão que mexeu horrores comigo! Fiquei algumas horas tremendo. Estou até agora com dores no corpo – pelo nervoso e pela correria! Posso caminhar umas duas horas sem o menor esforço, mas não agüento correr nem 5 minutos. Correr desesperadamente perseguindo minha bolsa, então… destruiu minha garganta, eu sentia muito gosto de sangue na boca e estou ainda com uma tosse de cachorro morto!

Voltando pra casa, saímos pra jantar, tomei um banho e deitei.. achei que já estava mais calma. Mas, não…
Consegui dormir quase rápido, mas tive uma hora inteira cheia de pesadelos e imagens repetitivas rodeando minha cabeça. Aí acordei de vez e não dormia mais. Resolvi levantar e ler pra me distrair, mas quando peguei meu livro me lembrei que, na correria, tinha perdido meu marcador de páginas. E não era um qualquer, era um flyer do primeiro Baile do Baleiro que eu fui, em 2007. Tinha um significado especial pra mim! E eu acho que vi ele caindo e voando pra trás, mas não podia voltar pra buscar.. Que ódio!!! Foi só aí que caíram minhas primeiras, e poucas, lágrimas. 
Logo que desci do ônibus achei que ia chorar, mas não chorei. Quando entrei na viatura da polícia de novo, e de novo, nada.
Na verdade, acho que estou entalada com isso até agora. Continuo sentindo frios desagradáveis na barriga, por exemplo quando liguei meu iPod e percebi que aquela música era a que eu estava ouvindo quando o maldito pegou minha bolsa. Ou quando achei a página do livro em que tinha parado no momento da confusão. Ou quando, em casa, abri minha bolsa pra procurar alguma coisa que eu sabia que poderia não estar lá, ou quando peguei pela primeira vez meus óculos escuros.
Ou quando eu penso que esses caras passaram mais de meia hora comigo, apanhando dos outros, indo presos, sentindo raiva. E que o ônibus em que eles me encontraram é o ônibus que eu pego todos os dias! Continuo vendo a cara de um deles quando penso no assunto e isso me arrepia – no pior sentido possível!


A conclusão dessa história toda é que é melhor eu começar a ir de carro pra faculdade.
Entre um medo e outro… acho que o trauma da violência foi maior. 
Hoje, pela primeira vez, sai de carro, dirigindo, sozinha! Sem ninguém do meu lado pra prestar atenção e me prevenir das cagadas.
Fiquei mega nervosa, tremendo pra caramba. Mas nada comparado com o nervoso de terça feira… Espero que consiga superar os dois medos e que no final, alguma coisa de positivo venha disso tudo! (nessas horas eu invejo quem acredita de verdade que tudo na vida tem um sentido e uma razão de ser)


Ah! Claro que apesar de medo e nervosismo, acabou tudo bem! Recuperei minha bolsa com tudo dentro!





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