"És mãe gentil"

Qualquer um que tenha irmãos, especialmente mais novos, já sentiu; e os que não sentiram, já viram nos filmes:
“meu irmão me irrita, é uma praga na minha vida, castigo eterno que meus pais me deram, etc, etc, etc… Mas ai de quem se atrever a fazer algum mal pro meu irmão!!! Não sobra nem pedacinho pra contar história, acabo com ele! Falar mal e agredir irmão meu, é privilégio MEU!!!”

Essa semana tive algumas brigas feias com o Chile e tive vontade de voltar correndo pros braços do Brasil. Quem diria, depois das intermináveis comparações de como minha vida é melhor por aqui…

Claro que nos momentos de raiva nem pensei que o Brasil tem uma burocracia terrível, que a violência em São Paulo é medonha, que o trânsito é um pesadelo…
E se nesses momentos alguém se atrevesse a tentar me lembrar alguma dessas coisas, tomaria na cara! Sem dó! Onde já se viu, falar assim do meu país?
Porque nessa semana o Chile é todos os nomes mais horríveis que eu conheço e o Brasil é minha lembrança boa, meu irmão que precisa ser protegido pra que possa me proteger.

Eu e o Lucas não temos planos de voltar a morar no Brasil e me ocorreu, durante essa semana de ódio ao Chilito, que esse plano carrega uma vantagem que eu nunca havia notado. 
Morar fora do Brasil preserva em mim um país “lar”, um colo pra eu ter pra onde voltar em momentos de briga, uma imagem bonita, nostálgica até, desse nosso país tropical, imagem que pode ser despida dos medos, preconceitos e críticas.

Acho que é parecido com quando a gente sai da casa dos pais. Já estamos na vida adulta, cada vez com menos espaço pessoal na casa que parece que não comporta tanta gente grande, irritados com o espaço e cansados das pessoas… 
Nesse momento a melhor parte de sair é poder querer voltar depois. Não voltar de vez, mas voltar pra visitas específicas, pra matar a saudade repentina da comida da mamãe, da camisa bem passada pela empregada, do cheirinho de amaciante na cama limpa, das músicas escolhidas pelo pai…
Saber que ali não é mais seu lar de verdade, mas que é onde sempre estará uma parte da sua história e uma fatia imensa do seu coração.

Imagina então quando essa “casa dos pais” fica justamente nesse “Brasil”?

É bom ter vontade de voltar, é maravilhoso saber que você pode voltar (não consigo nem imaginar a angústia dos exilados), mas talvez, nesse momento, o mais importante seja não precisar voltar. Ter a segurança de que tudo isso está lá me esperando pra quando eu quiser ou precisar e continuar sendo forte pra resolver meus problemas (e minhas raivas) por aqui mesmo, sem correr e desistir de tudo e ficando muito bem com o abraço do marido e o skype com a mãe – colos deliciosos, diga-se de passagem!

"É a vida"

Ontem acordamos com a notícia de que o marido da Carmen, uma senhora que trabalha com o Lucas, tinha morrido.
Ele estava muito doente há uns 8 anos já, mas na última semana uma pequena gripe levou seu problema no pulmão a um estado terminal e em menos de 5 dias ele se foi…
Eu não conhecia a Carmen e menos ainda seu marido, mas fiquei mal com a notícia. Definitivamente eu não sei lidar com a morte, com a perda de pessoas amadas e morro de medo só de pensar (ou saber) que isso faz parte da vida de todo mundo – ir e, pior, ficar.

O Lucas passou um bom tempo da manhã de sábado avisando todo mundo no banco, passando o endereço da igreja onde seria o velório e tal, e depois saímos pra fazer nossas coisas.
Ir buscar a carta de motorista do Lucas, comprar uma bolsa nova pra mim (à prova de roubos e sem traumas..rs), encontrar o melhor caminho de carro até minha faculdade, ir dirigindo até lá pra praticar e etc. 
Por volta de umas 15h30 passamos em uma floricultura e fomos ao velório. Conheci várias das pessoas que trabalham no banco, conhecemos os filhos da Carmen, conversamos amenidades, abraçamos os familiares…
Ficamos algumas horas na igreja e eu me arrepiava e meus olhos enchiam de lágrima cada vez que a Carmen falava de como estava, da incapacidade de dormir, do medo de voltar pra casa, de entrar no quarto do casal, do estado de inanição em que ela se sentia… Não faria sentido algum pras pessoas ao meu redor, por isso segurei muitas vezes o choro que quase veio. 
Choro pela empatia com aquela nova viúva, choro pela lembrança dos que já perdi e choro de medo!
(Não tenho medo de morrer, de verdade. Mas morro de medo da morte dos meus!)

Depois dessas horas na igreja reunimos um pequeno grupo e resolvemos fazer alguma coisa. 
Primeiro fomos jogar sinuca. Depois, já que estávamos ali mesmo, jogamos uma hora de boliche. Em seguida, brincamos em várias máquinas do playland do shopping, máquina de dança, basquete, matar castores, pular, escolher nossa recompensa… 
Por volta de onze da noite nos animamos pra ir dançar! Algumas ligações feitas e decidimos por um bar colombiano em que poderíamos comer comidas típicas e dançar uma boa música latina, onde resistimos bravamente até o dj resolver entrar nas músicas eletrônicas chatas de sempre. E ufa!
Foi um final de dia super eclético, diferente e divertido! Ótimos lugares, ótimas companhias, ótimas comidas…

Mas não pude não pensar de onde raios veio todo esse pique…
Tínhamos acordado cedo com a ligação sobre o marido da Carmen e não dormimos mais…mesmo assim emendamos um programa ao outro, nos divertindo de verdade.

Eu diria que esse é um jeito saudável de lidar com a morte: celebrar a vida!

Acho que todos ficam impactados com notícias assim, mesmo que não seja alguém próximo a você, porque nos faz ter que lidar com a noção da finitude da vida. E faz bastante sentido que, frente à finitude dela, resolvamos sair e aproveitar o que temos de vida nossa e o que temos de companhias.

Talvez a gente devesse celebrar a vida com mais freqüência, sem precisar desses chacoalhões nos assustando, mas sei lá, no dia a dia é mais agradável esquecer dessa necessidade (especialmente por causa do lembrete que ela traz) e seguir na normalidade….

No final das contas, talvez um pouco do susto e da graça esteja justamente na não permanência dessa sensação…


"A saudade é uma colcha velha…"

A saudade é um negócio maluco, que não escolhe momento, motivo ou lugar pra aparecer!
Faz você levantar da cama, colocar o roupão e vir escrever alguma coisa pra ver se consegue desafogar e pegar no sono, enfim.


Pode ser uma música que surge no fone de ouvido e faz o motorista do ônibus assistir, com uma cara preocupada, você chorando feito criança no banco lá trás.
Pode ser a vontade repentina de comer bisnaguinha com yakult numa hora muito ingrata no meio da noite.
Pode ser a repetição, em outro idioma, de uma aula que você já teve.
Pode ser uma foto que pula na sua frente quando você deveria estar indo dormir.
Pode ser uma quase dor de dente.
Pode ser a percepção de que se está com muita saudade de alguém que não vê há nem 2 meses e que ainda faltam tantos outros pro reencontro.
Pode ser um email que nem era pra você, mas que pega com força em algum lugar desconhecido.
Pode ser uma voz (des)conhecida que te faz virar o pescoço à procura, antes de lembrar que é besteira.
Pode ser um cheiro.
Pode ser uma sombra.
Pode ser uma mensagem.
Pode ser um abraço errado.


Ou não precisa ser nada disso…


Ela vem e aperta o coração. Ou cutuca o coração. Ou aquece o coração.


A saudade é o sentimento de falta, mas é também, e acima de tudo, a certeza do amor.


Posso sentir uma vontade nostálgica de algumas coisas menores, mas saudade mesmo, só daquilo que amo ou amei.


Talvez seja isso: a saudade é o amor – ou a lembrança dele – nos mostrando toda sua potência…

"Pense que eu cheguei de leve, machuquei você de leve e me retirei com pés de lã"

Acabam de sair daqui as últimas visitas da temporada (agora a próxima tá agendada só pra setembro). Foi mais de um mês com casa lotada todos os dias. Mais de um mês de gente dando atenção pra Maní quase o tempo todo. Mais de um mês de bons dias e boas noites multiplicados. De passeios turísticos – repetidos ou não – com pessoas diferentes. De mesa cheia e louça sendo usada até esgotar. De barulhos na minha casa que não sejam da construção ao lado. De coisas diferentes na geladeira e no armário. De dicas, instruções, troca de informações. De mais ou menos atenção que pude dar pros que estavam aqui – variando com as tarefas da faculdade e com meu bom (ou mau) humor. Mais de um mês da casa aquecida mais por calor humano que pela “calefação central por louça radiante”. 


Depois de passar uma semana no Brasil muitos me perguntaram se foi difícil voltar ou “ir embora de novo”. Não, não foi! A semana brazuca foi uma delícia, cheia de reencontros gostosos e gordos, mas foi também cansativa, correria pra todo lado, sem ter nossa casa pra voltar, nosso cantinho pra descansar. 
Foi uma delícia ir, mas foi bom também voltar. Foi bom e foi fácil! (não que eu não tenha chorado um pouquinho no aeroporto e nas despedidas…rs)


O que eu venho tendo cada vez mais certeza é que muito mais difícil do que voltar pra casa é deixar os que vêm visitar voltarem pras suas casas.
Por mais que a casa fique bagunçada, por mais que fiquemos sem “intimidade (como ter que colocar roupa e não pijama depois do banho, por exemplo), não importa, as visitas são muito boas! 
Não só porque enchem o ambiente, mas porque são todos muito importantes e queridos os que passam (passaram, passarão, passarinho) por aqui!
E fica sempre um gostinho de quero mais.


E a casa fica vazia e enorme. E as coisas param nos seus lugares. E as luzes param apagadas quando devem estar. E a Maní fica mais sozinha. E eu fico sempre chorando quando alguém sai.


É difícil me despedir. Difícil não é ficar, mas sim deixar-los ir.


Mas… quer saber?


Que venham os próximos!!!